Caros leitores,
Iniciamos o terceiro mês de publicações de entrevistas com ilustres académicos e profissionais das relações internacionais. Assim, conclui-se esta primeira fase nesta iniciativa que ainda busca a consolidação e hábito de leitura que lhe falta. Conforme tive a oportunidade de falar com o entrevistado de hoje, "... especialmente em Portugal, a falta de ânsia por conhecimento nestas matérias é assustadora..." o que é facilmente comprovável pelos registos de visitas observados entretanto.
De facto, se me é permitida a franqueza, a Internet de língua portuguesa é hoje quase totalmente eclipsada pelos seus utilizadores Brasileiros. É assim nos motores de busca da Google, Yahoo, Altavista, etc. É assim na Wikipédia, na blogosfera da Academia, nos sítios de redes sociais. É assim na quantidade e na qualidade, nas cores e nos autores, nas visitas e nas publicações, no esforço e no entusiasmo, nas curiosidades e na investigação. Assim, se alguma coisa perdi nas minhas expectativas quanto a esta gota de água no oceano lusitano, ganhei definitivamente numa outra comunidade irmã na outra margem do Atlântico. E ganhei também em Angola e Moçambique, terras que me levam a querer saber mais sobre os pontos que assinalam a proveniência das visitas. Esqueço-me da velha Lisboa e mergulho na nova Luanda como novos hotéis e as suas chinesices. Por uns tempos gostava de viajar, ir nesses sonhos de infância em busca de nós mesmos nos outros.
Um dos propósitos desta iniciativa, sim, foi buscar novos mundos dentro daquele especificamente relacionado com as relações internacionais. Porque Portugal parece-me província de reformadores, administradores e atrapalhadores empossados de etérea sapiência intocável e inquestionável. Parece-me difícil alguém viver em tão pequeno canto deserdado de tudo o resto, especialmente de bom senso e alguma audácia. Sonhando apenas um pouco mais alto, consegui observar os profundos oceanos que nos separam das outras ilhas do conhecimento como se fôramos um museu natural de algo que não funcionou. Com efeito, vive-se o dramatismo darwiniano, uma pseudo-psique que se pretende colectiva e aglomerante de tristezas nacionais. E tudo o que falta para espreitarmos fora desta caixa negra caída de podre é um pouco de trabalho, alguma dedicação e uma pitada de aspirações. Tão simples fórmula para tamanha miríada de obstáculos que nem vencem nem se deixam vencer.
Por tudo isto e muito mais, reconheço respeitosamente a coragem e visão daqueles que ousaram sair para continuarem a ser Portugueses. Dizem-nos que Portugal é a Pátria dos Portugueses, pois eu digo que de pai estamos órfãos; a mãe viu-nos crescer e lançar ao mar. Se falta cumprir Portugal, esse apenas encontraremos nos Portugueses, que até hoje teimam em maturar.
Nome: Moisés da Silva Marques Nacionalidade: Luso-Brasileira Formação: Doutoramento na Universidade de São Paulo Instituição: Universidade de São Paulo
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(imagem obtida aqui)
1. A notícia que pauta a actualidade Brasileira em matéria de política externa é indiscutivelmente a criação da União das Nações Sul Americanas. Toda uma nova dimensão integracionista alarga-se na América do Sul, assim posicionando o Brasil como potência económica hegemónica de facto. Na sua análise, trata-se de um avanço preventivo contra possíveis e futuras ameaças ao desenvolvimento e crescimento Brasileiro, ou a uma efectiva necessidade de alargamento ao seu capital cada vez mais forte e estabilizado?Acredito que a UNASUL nada mais é do que uma derivação de projetos anteriores de expansão do Mercosul, nascidos no governo de Fernando Henrique Cardoso. Já se falava, em 2001, em Merconorte, ou expansão do projeto integracionista inicial. Para o Brasil, que foi protagonista do projeto da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), em Cuzco/2004, trata-se de um alargamento de seu capital político na região. Esse tipo de iniciativa vem ao encontro de outras, como a busca por um assento no Conselho de Segurança da ONU, a tentativa de emplacar um representante no BID e a candidatura natimorta à Diretoria Geral da OMC.
O que é preciso saber é quão rentável é essa estratégia, porque ora enfrentamos resistências da Argentina, ora da Venezuela, ora dos sócios menores do Mercosul. O Brasil precisa, urgentemente, definir se quer ser ou não uma liderança inconteste na região. Em minha opinião, não existe liderança sem custos. 2. Na UNASUL, outras vozes começam a alertar para a superioridade que empresas Brasileiras possuem em relação às suas companheiras vizinhas, o que aliado ao recém criado Banco do Sul, poderá permitir um excessivo protagonismo face aos demais países sul-americanos, alguns em condições muito vulneráveis. De que forma responde a UNASUL às preocupações, necessidades e interesses das restantes nações sul-americanas, uma vez que os ganhos para Brasília são evidentes?Não tenho tanta certeza assim sobre os ganhos para Brasília. O Banco do Sul, por exemplo, não é unanimidade entre os policy makers brasileiros. O Brasil demorou muito a aderir e vem questionando fortemente as iniciativas de Equador, Bolívia e Venezuela que julgam ser necessário constituir o capital desse banco com parte das reservas externas. No Brasil, existe o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que já faz um papel relevante (inclusive em projetos nacionais em outros países) na área de fomento e desenvolvimento.
Quanto à superioridade das empresas brasileiras, isso já gera incômodos no próprio Mercosul, com uma sucessão de salvaguardas de setores industriais argentinos, em particular os de bens de capital.
O excesso de protagonismo brasileiro, principalmente após o incremento de Investimentos Estrangeiros Diretos, oriundos da concessão do Investment Grade pelas agências de rating, é preocupante e já gerou protestos de diversos presidentes da região. 3. Ainda numa análise dos processos de integração sul-americanos, o casal Brasil-Argentina é um eixo de estabilidade e crescimento. Com os sucessivos e galopantes avanços económicos do Brasil, esta é uma parceria estratégica que poderá sofrer algumas erosões no futuro, à medida que o Brasil se internacionaliza para além da América do Sul. Como antevê o papel das relações em eixo Brasil-Argentina num contexto UNASUL?As relações entre Brasil e Argentina são daquelas que tipicamente identificamos em relações internacionais como “Teoria das Relações em Eixo”. Desde a desvalorização cambial brasileira, em janeiro de 1999, houve uma contraposição entre as duas políticas externas. A forma abrupta como tudo aconteceu acabou gerando um stress entre os dois países.
Em algum momento na gestão passada, o ex-Presidente argentino, Néstor Kírchner, afirmou que se existe um lugar na ONU, o Brasil quer; se existe um lugar na FAO, o Brasil quer; se existe um lugar no BID, o Brasil quer; se existe um lugar na OMC, o Brasil quer... Até o papa o Brasil quis eleger. Ironias à parte, talvez essa assertiva represente bem o momento atual da relação entre os dois países.
Existem algumas assimetrias bastante pronunciadas, neste momento, entre as duas economias, que contrapõem estratégias diferenciadas em lidar com as crises passadas. Essas diferenças acabam por marcar diretrizes também díspares com relação ao alargamento dos processos de integração.
A Argentina vinha sistematicamente minimizando os avanços da CASA, enquanto o Brasil vinha buscando seu incremento. A partir do momento em que Chávez passou a ser um agente diferenciado no processo, a Argentina passou a ter um maior apetite pelo aumento da integração, pois isso não significaria, necessariamente, hegemonia brasileira. 4. Um dos potenciais perdedores são os Estados Unidos. Com uma margem de manobra económica significativamente reduzida com a formação deste novo bloco, alguns autores antecipam um futuro alargamento do NAFTA para SUL, assim disputando as Américas com o pólo emergente do Sul – o Brasil. Conseguirá o Brasil capitular esta vantagem com uma diplomacia multilateral sólida e envolvente?Não compartilho a visão de que os Estados Unidos são perdedores potenciais nesse tipo de processo. Obviamente que, neste momento, a ALCA não interessa a ninguém. Nem aos Estados Unidos. Portanto, expandir o NAFTA além das fronteiras do CAFTA-DR não parece estar nos planos dos Estados Unidos.
A recente visita da Secretária de Estado, Condoleezza Rice, ao Brasil demonstra como o país foi novamente “eleito” como um aliado preferencial dos EUA, na região. A questão entre os dois países envolve mais aspectos comerciais do que qualquer outra coisa: a) o comércio entre ambos vem caindo proporcionalmente (no início da gestão Lula era de mais ou menos 23% de toda a nossa balança comercial e hoje está em torno de 15%); b) o Brasil venceu a disputa do contencioso do algodão, contra os Estados Unidos, na OMC e esse fato opôs os setores agrícolas de ambos os países.
A aposta do Brasil para sair desse tipo de “sinuca” é buscar os organismos multilaterais. Mas é fato, também, que na Era Bush os Estados Unidos têm respeitado muito pouco o multilateralismo. 5. Outro dos vectores no qual serão de adivinhar significativos desenvolvimentos é na relação entre o Brasil e a União Europeia. É do meu entender a aquisição de uma crescente autonomia que o Brasil observa face ao mercado comunitário europeu. Terá esta sido uma porta que se fechou para Bruxelas, ou, pelo contrário, a negociação com em bloco garantirá ao Brasil novos trunfos com que atacar potenciais mercados?A relação entre Brasil e União Européia é de fato muito boa, a despeito das discordâncias gerais quanto aos rumos das negociações na Rodada Doha da OMC. Em julho de 2007, sob a Presidência de Portugal, a UE elevou o Brasil à condição de parceiro estratégico do bloco. Esse tipo de decisão pode ser interessante ou não. Depende do ponto-de-vista de análise.
Sob a ótica comercial, o Brasil pode incrementar parcerias, principalmente em razão da penetração dos biocombustíveis do país, particularmente o etanol. Entretanto, sob a ótica política, parece trazer problemas ao Mercosul. Como a proposta de parceria estratégica foi feita ao Brasil e não ao Mercosul, sendo que Durão Barroso frisou que poderia ser estendida ao Mercosul, desde que este não absorvesse a Venezuela, isso gerou um desconforto entre os parceiros, principalmente a Argentina.
Quanto a possíveis mercados promissores, creio que a parceria pode incrementar a relação entre o Brasil e os novos países europeus, principalmente os do Acordo de Visegard. 6. Este crescimento, aliado a visitas de Lula da Silva ao continente africano, têm alimentado algumas previsões de que o Atlântico Sul verá desenvolvida uma nova dinâmica primariamente económica de ligação entre a América do Sul e o Sul de África. Possuirá o Brasil uma estratégia mais ampla para este espaço ou limita-se a parcerias comerciais dispersas e conjunturais?Existe de fato uma estratégia na Política Externa Brasileira, relativa ao continente africano. O presidente Lula da Silva visitou o continente diversas vezes e vem se tornando um interlocutor eficaz de suas demandas, junto aos organismos internacionais. Não podemos esquecer que o Brasil teve papel relevante no reconhecimento dos governos de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, na década de 1970.
O Brasil tem um déficit comercial crônico, com o continente africano, sendo que em 2007 remetemos para lá 5,34% de nossas exportações e importamos 9,40% de nosso total. Há espaço, então, para melhora de nossa balança comercial. Alguns países africanos, como por exemplo Angola, vêm crescendo mais do que a China e o Brasil, como parceiro privilegiado desses países, deve manter e até incrementar sua estratégia junto ao continente. Isso tem redundado em parcerias na área industrial, de serviços e, principalmente, de alimentos e biocombustíveis. 7. As recentes descobertas de novas jazidas de petróleo na costa do Brasil são igualmente um importante factor positivo para as políticas interna e externa de Brasília. Com auto-suficiência, é de esperar uma crescente exportação do “ouro negro” que apenas acelerará o processo de crescimento económico. Serão estas razões suficientes para vermos o Brasil ingressar a OPEP e assim dinamizar as suas potencialidades?O ingresso na OPEP é uma decisão basicamente política e creio que o Brasil não tomaria de imediato uma posição desse tipo, dado o histórico de seu combate a certos oligopólios e cartelizações. Deve-se ressaltar que o país chega, caso as reservas recentes se confirmem, à 17ª. posição em termos de reservas mundiais petrolíferas. Há espaço para maior crescimento.
O problema é que boa parte do petróleo brasileiro é nafta de alta densidade, portanto, complexo para o refino da gasolina. Nesse sentido, já faz muito tempo que o Brasil é um exportador líquido de óleos brutos de petróleo, mas um grande importador de hidrocarburetos de baixa densidade, para chegar ao refino do combustível.
De qualquer forma, essa posição estratégica do petróleo no Brasil rende dois grandes dividendos: a) a Petrobrás já se posiciona entre as seis maiores empresas do mundo, ultrapassando inclusive a Microsoft; b) o Brasil lidera o ranking mundial de exploração de petróleo em águas profundas e vem exportando esse tipo de tecnologia, para países asiáticos e africanos. 8. O Brasil é um país cujos analistas apontam como perdedor marginal com a actual Crise Alimentar mundial. Como antevê o Professor os impactos deste fenómeno antecipado mas ineficazmente combatido na busca sul-americana pelo fim do ciclo do subdesenvolvimento?Não acredito que o Brasil seja um perdedor marginal com a crise. Até porque o setor que mais tem crescido na balança comercial do país, nos últimos anos, é exatamente o do agronegócio. Portanto, numa crise de preços relativos, como a que vivemos atualmente, o Brasil parece mais ganhador do que perdedor líquido. O problema é o ataque continuado de organismos internacionais aos biocombustíveis, que têm colocado o Brasil na Berlinda, como aconteceu na última reunião da UNCTAD, em Acra.
A porta de saída para o subdesenvolvimento sul-americano passa necessariamente por políticas públicas mais focadas, pelo combate à desigualdade e pela queda dos subsídios agrícolas em alguns países da União Européia (França e Itália, particularmente) e nos Estados Unidos. 9. Aproximando-nos do fim, a ocupação e aproveitamento da Amazónia constituem um vector fundamental no respeito pelas fronteiras sul-americanas, mas também como instrumento de pressão externa por parte sobretudo dos EUA que lideram algumas campanhas contra os interesses brasileiros. Poderia explicitar qual a importância do “pulmão da Terra” na política externa Brasileira, e como responde a essas pressões externas?Infelizmente o Brasil não possui de fato uma Política Externa Ambiental. Temos uma média de opiniões. Ainda há por aqui um intenso debate entre “desenvolvimentistas” e “ambientalistas” sobre uma dicotomia que a meu ver é falsa. O desmatamento na região amazônica vem novamente aumentando, o que é péssimo para a imagem internacional do país. Propõe-se agora um Plano para a Amazônia Sustentável (PAS), mas o Ministério do Meio Ambiente não vinha sendo envolvido, o que resultou na demissão da Ministra Marina Silva. O debate é intenso, principalmente depois que começaram a surgir propostas para a criação de uma Autoridade Ambiental Internacional, que teria algum poder de ingerência sobre a Amazônia. Há um longo caminho a ser percorrido nesse sentido no Brasil, até porque alguns setores ainda acreditam que o melhor caminho para o desenvolvimento é, necessariamente, a destruição. 10. Para concluir, e com o recente Acordo Ortográfico, as futuras relações Brasil-Portugal enfrentam alguma incógnita, com papéis ainda por delinear. Qual a opinião do Professor sobre este tema, que em Portugal tem suscitado algum debate?Aqui no Brasil o debate é ainda incipiente. Essas discussões já vêm sendo levadas a cabo na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Acredito que não deve causar maiores problemas. Se for para uniformizar um pouco mais a nossa linguagem escrita, não vejo porque não apostar nisso.
As reformas ortográficas são necessárias com o passar do tempo. O português aqui no Brasil vem absorvendo muitas palavras e expressões impensáveis, há algum tempo. Além disso, os neologismos ocorrem toda vez que precisamos de novas palavras para designar algo complexo. Por exemplo, o verbo “deletar” não existia até pouco tempo por aqui. Entretanto, com a linguagem cibernética, adotada pelos mais jovens, ficou inescapável utiliza-lo.
Dado o calibre dos intelectuais envolvidos nesse tipo de Acordo, acredito que teremos a melhor solução para todas as partes.
 Entrevistas anteriormente publicadas:
EM PORTUGUÊS:
- Doutora Raquel Patrício - A Emergência Brasileira nos contextos América Latina, EUA e Lusofonia [VER]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - As RI Brasileiras Históricas e Contemporâneas [VER]
- Vice-Almirante Alexandre Reis Rodrigues - Portugal e a Marinha Portuguesa no Século XXI [VER]
- Professor Catedrático José Adelino Maltez - Assuntos Vários [VER]
- Mestre Isabel David - A Importância da Europa Oriental nos Contextos Regional e Mundial [VER]
- Doutor Estevao de Rezende Martins - A História e a Filosofia do Mundo Contemporâneo [VER]
- Doutor Marcos Farias Ferreira - Os Fundamentos da actual Teoria das Relações Internacionais [VER]
- Doutor Amado Luiz Cervo - A História da Inserção Internacional do Brasil [VER]
- Doutor James Robert Russell - As Civilizações Arménia e Irania pré-Islâmica [VER]
- Doutor Eiiti Sato - A Política na História e Presente do Brasil [VER]
IN ENGLISH:
- PhD. James R. Russell - The Armenian and Pre-Islamic Iranian Civilizations [READ]
- PhD. Raquel Patrício - The Brazilian Emergence in respect to Latin America, the USA and Lusofonia [READ]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - The Historic and Modern Brazilian International Relations [READ]
- Vice-Admiral Alexandre Reis Rodrigues - Portugal and its Navy in the XXI Century [READ]
- Professor José Adelino Maltez - Various Topics [READ]
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