Caros leitores, Estas têm sido longas semanas nas quais os trabalhos para o Nostrum Tempus têm mudado o seu modus operandi da tradicional publicação de artigos para um maior envolvimento no terreno. Talvez buscando alguma da comunalidade que lhe faltava, ou talvez um dinamismo à muito projectado mas nunca totalmente concretizado - se o irá ser de todo -, a realização e publicação destas entrevistas é uma iniciativa para a qual tenho dedicado um esforço especial. É meu entender que todas as oportunidades para aprender sobre novos tópicos e sob novas luzes são de felicitar e bem-receber, e se fazendo-o tenho que convidar os mais diversos académicos e profissionais a expressarem algumas das suas opiniões e conhecimentos sobre os assuntos nos quais se especializaram, então tanto melhor. No entanto, a questão que se tem levantado é uma que poderá adivinhar uma possível ruptura entre o passado e o futuro, não do blogue Nostrum Tempus, mas a título pessoal. Sendo inquestionável a honra em contactar e aprender directamente e em primeira mão de alguns dos mais conceituados especialistas dos estudos que aqui procuro abordar, também seria razoável esperar algum feedback por parte de outros olhares mais ou menos atentos que partilhassem minimamente o mesmo interesse e curiosidade. A julgar pelo tempo por eles(as) dedicado a esse estudo, essa seria uma previsão justificada e bastante acertada não fossem outros factores confluir na postura perante este conhecimento que nos é transmitido sem custos ou encargos adicionais a quem assim o desejar. Pois assim pretendo exorcizar alguns factos que me são em parte (ou de todo) ilegíveis. A saber: i. de todas as entrevistas realizadas até agora, nenhuma foi aquela a ultrapassar as 30 visitas totais, quando o blogue observa em média 450 visitas diárias; ii. alguns são os contactos recebidos a congratular o trabalho realizado relativo a matérias de ênfase secundário, e raros os alertas de leitores especialmente interessados no conteúdo característico do blogue; iii. é mais regular receber mensagens de alunos em dificuldade com trabalhos nesta ou naquela área, do que mensagens a perguntar por bibliografia adicional ou a fonte da informação aqui listada; iv. nenhuma é a atenção atribuída às oportunidades de perguntar directamente a académicos reconhecidos nas suas áreas de especialização, quando todos os entrevistados demonstram enaltecidos elogios sobre a sã iniciativa de as realizar e do formato que tomam; v. tão escasso é o panorama lusófono neste tipo de iniciativas, quando o mundo anglófono é sobejo e reconhecido na manifestação a qualquer proposta - maior quanto a sua criatividade -, proveniente de todos os seus quadrantes, especialmente as de sua nacionalidade; vi. tamanha pequenez para tão largo universo, e mesmo aquela continua espezinhada e oprimida pelo mainstream e strainedstream da subterrânea apreciação de esforço e valor, quando é ela própria que constitui, se criativa e responsavelmente estimulada, a diversidade de mentes que habitam esta esfericidade intelectual de possibilidades sonhadas; Deixo, pois, um apelo para bem do pouco que se tem feito, ambicionando fazer melhor. Que algo mude senão for tarde. Caminhando neste espírito, é por ora tempo de apresentarmos o próximo convidado em palavras que ficarão curtas às suas respostas dadas. Sendo um académico de reputado talento teórico, o seu trabalho é de uma tela analítica simultaneamente inovadora e consistente, conforme será facilmente aqui. Como todas as introduções falham em descrever com a devida honra, manterei o mesmo formato de anteriores entrevistados, como se segue: (foto indisponível)Nome: Marcos Farias Ferreira Nacionalidade: Portuguesa Educação: Doutoramento em Relações Internacionais Instituição: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) - UTL Breve biografia disponível aquiPrincipais publicações:Cristãos & Pimenta: a via media na teoria das Relações Internacionais de Adriano Moreira, Almedina, Coimbra, 2007- "Despre scriitura, ironie si zeflemea: o perspectiva asupra puterii in America Latina" in EX PONTO: text, imagine, metatext, nr. 1 (10), ano IV, janeiro-março 2006, pp. 114-123.
- "fromUNDERtheGROUND: Natiune si naratiune prin prisma ochiului cinematic al lui Kusturita & Bregovic" in EX PONTO: text, imagine, metatext, nr. 2 (7), ano III, abril-junho 2005, pp. 159-167.
- "Of Writing, Irony & the Mockery of Power. Postcolonial Loci of Enunciation from Within Latin America" in Isabel Capeloa Gil et al., org., Landscapes of Memory, Universidade Católica, 2004, pp. 452-461.
- Co-tradução para a Editora Gradiva de James Dougherty e Robert L. Pfaltzgraff, Jr., Contending Theories of International Relations: A Comprehensive Survey, 5ª ed., Longman, Nova Iorque, 2001.
- "Dissenting Voices. Moral Ressources for the Transformation of Political Community in the Czech Twentieth Century", in Estudos em Memória do Professor Doutor Luís Sá, Universidade Aberta, Lisboa, 2001.
- Autenticidade sobre a Balaustrada. Václav Havel ou a dimensão existencial e dramática de uma política antipolítica, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Lisboa, 2000.
- Caderno de apoio para a cadeira de Política Internacional, Universidade Aberta, Lisboa, 2000.
- Recensão de Nicholas J. Rengger, International Relations, Political Theory and the Problem of Order: Beyond International Relations Theory?, in Millennium: Journal of International Studies, vol. 29, No. 2, 2000.
1. As Relações Internacionais, como as concebemos actualmente, derivam de um processo histórico muito específico e tipicamente anglo-saxónico. Enquanto ramo do conhecimento das ciências sociais, parece assentar num dialéctica entre uma escola realista de matriz europeia, e outra liberal de influência norte-americana. Como é que se desenvolveu, na sua óptica, esta dinâmica e qual a sua importância para RI?Antes de mais, não podemos dizer que a escola realista seja de matriz europeia e a escola liberal de matriz norte-americana. De certa forma, ambas são de matriz europeia porque resultam do legado político europeu e da constituição de uma sociedade de estados europeia que se estendeu aos restantes continentes entre os finais do século xviii e o século xx. A política externa dos Estados Unidos é o claro exemplo da síntese entre ambos os paradigmas, se bem que sempre associemos o partido democrata à tradição liberal e o partido republicano à tradição realista. A realidade é mais complexa, mas a própria comparação entre candidatos presidenciais tende a realçar esta confrontação. Esta dinâmica realismo-liberalismo dominou em grande parte os debates oficiais na disciplina académica de Relações Internacionais até finais da década de 1980, altura em que não só o final da guerra fria, mas também a influência de outros debates no âmbito mais alargado das ciências sociais provocaram um certo sentimento de crise e abriram outras possibilidades de investigação em RI: a possibilidade de colocar novas interrogações à realidade. 2. Como seria de esperar, a evolução da ciência e da realidade acompanham e complementam-se mutuamente. Contudo, eventos houveram que precipitaram súbitos avanços estruturais na comunidade internacional. Quais terão sido os eventos mais marcantes desde a consolidação das RI enquanto ciência, e quais os impactos que os mesmos causaram na forma como se percepcionou o mundo na época?Em primeiro lugar, é ambíguo falar de ciência em Relações Internacionais, o que tem relação directa com a questão colocada. Os acontecimentos, a ontologia das relações internacionais não é independente face à forma como é apreendida e estudada. Assim, entendo que os factos materiais não falam por si mesmos; o que interessa saber é quais os significados que os actores sociais atribuem a esses factos. Falar de factos independentes da consciência humana é falar de objectividade quando o domínio das relações internacionais é o da intersubjectividade, ou seja, da forma como os actores atribuem significado ao mundo material em que interagem. É neste sentido que podemos dizer que os factos marcantes desde a consolidação das RI foram a criação e o fracasso da Sociedade das Nações, a ascensão e queda do bipolarismo que opôs os Estados Unidos à União Soviética e, finalmente, a guerra contra o terrorismo. Escolhi estes três contextos, mais que factos, para realçar a forma como foram condicionando a percepção da tensão entre cooperação e conflito nas relações internacionais. Contudo, entendo que começa já a poder identificar-se outro contexto fundamental com implicações nessa mesma tensão entre cooperação e conflito e que é o discurso da segurança ambiental que, para além do mais, envolve um número crescente de actores internacionais. 3. Uma das perguntas quintessenciais das RI assenta na distinção entre comunidade internacional e sociedade internacional. Embora reflictam realidades sócio-antropológicas diferentes, qual é para o Professor a relevância desta distinção? Será meramente em termos de objecto de estudo, ou reflectirá perspectivas substancialmente divergentes perante uma mesma realidade internacional?Começa a ser habitual os media referirem-se a uma entidade abstracta a que chamam de ‘comunidade internacional’ para identificarem um actor relevante das relações internacionais. A utilização do conceito é contestável, mas parece-me contudo inegável a validade do debate em torno dele. É que o conceito de sociedade internacional não é suficiente para compreender fenómenos que estão para lá do sistema estatocêntrico e actores não-estatais que interferem activamente na governação global. Estudar a ontologia da sociedade internacional continua a ser fundamental, sobretudo na tal dimensão da intersubjectividade das normas, regras e mecanismos de decisão consensuados entre estados – e não esqueçamos que os estados continuam a deter o monopólio da violência legítima, por exemplo – mas a governação global já é algo mais do que se âmbito ontológico. O conceito de comunidade internacional pode então servir para identificar um conjunto de dinâmicas políticas com a participação crescente dos actores não-estatais na tentativa de interferirem no estabelecimento dos critérios éticos e pragmáticos da governação global. Por outro lado, e recorrendo à definição de Ferdinand Tönnies, o conceito de comunidade serve ainda para designar um grupo humano a que se pertence de forma natural, sem opção, o que transformaria a humanidade no grupo de base para o exercício da legitimidade política. Mais do que uma realidade esta é, quando muito, uma tendência. No discurso dos media, porém, a comunidade internacional é muitas vezes a sociedade de estados ou o grupo das principais potências. 4. Ainda relacionado com o objecto de estudo, as RI procuram, e sempre procuraram, dar resposta não só a interpretações retrospectivas da História mas também e sobretudo a questões importantes do presente. Numa realidade consideravelmente diferente daquela existente no dealbar do século XX, considera que essa equiparação é atingida com sucesso pelos pensadores e trabalhos contemporâneos, ou continuaremos a perseguir uma lebre sempre mais rápida que a velocidade das nossas ideias?Há diferentes formas de abordar o estado das relações internacionais. Ao longo da história da disciplina, e mesmo nos nossos dias, há quem opte por uma investigação mais quantitativa e quem opte por abordagens mais qualitativas; quem opte pelo estabelecimento de modelos e procure inferir regras mais ou menos universais e que recorra à desconstrução de conceitos; quem encare a produção de conhecimento como um instrumento de resolução de problemas concretos e quem veja o conhecimento de forma crítica, como instrumento para mudar a realidade. Por isso, a relação entre passado e presente não é a mais problemática; o que é problemático é a forma como os diferentes paradigmas e abordagens constroem a realidade e daí retiram consequências para a produção de conhecimento. A relação entre ontologia e epistemologia é que é a questão fundamental que opõe as diferentes visões do mundo. Para muitos esta é uma questão acessória, metateórica. Ela é de facto metateórica, mas é neste domínio só aparentemente metafísico que começa a lua política pela definição da realidade, pela sua naturalização ou pela sua visão crítica. Eu diria mesmo que em vez de visões diferentes do mundo, os diferentes paradigmas em Relações Internacionais constroem mundos diferentes, pelo que é diferente concordarem se é de facto uma lebre aquilo atrás do que correm.
5. Serão as Relações Internacionais tendencialmente universalistas, ou permanecerão reféns das limitações do pensamento ocidental, cujos mecanismos de divulgação, percepção e funcionamento parecem secundarizar outras correntes do pensamento que não as mainstream?Caracterizada na década de 1960 como uma ciência social anglo-saxónica, a disciplina não deixou ainda de o ser. Isto tem muito que ver com o poder dos Estados Unidos e do Reino Unido, não só o hard power mas, sobretudo, o soft power. É quase irresistível o poder de atracção das instituições universitárias americanas e britânicas nesta área, e quase impossível competir com elas a partir da Europa continental ou de fora dela. Apesar de tudo, tem havido na academia britânica sobretudo uma tendência de abertura ao estudo de novas questões e a paradigmas mais críticos e menos reificadores do status quo político. Não sei é se isso é suficiente para caracterizar a tal universalização que a pergunta sugere. Pelos menos, as duas últimas décadas no trajecto da disciplina trouxeram uma desconstrução das motivações epistemológicas na ‘ciência’ das relações internacionais e uma interrogação permanente quanto aos interesses que naturalizamos e universalizamos nas ideias e projectos dos mais poderosos. O regresso da análise da hegemonia à escala global é sinal disso. 6. A um nível mais pragmático, observamos mudanças substanciais a um ritmo acelerado, o qual na concepção de Adriano Moreira designaríamos de Lei da Complexidade Crescente. Numa era em que os valores e costumes do passado ameaçam tornarem-se antiquados perante o desconhecido do futuro, que implicações poderemos esperar relativamente ao sistema internacional, no qual a legitimidade de violência entre Estados parece escassear ou tornar-se crescentemente mais difícil de justificar e sustentar, no qual numerosos outros actores adquirem uma maior participação, etc?Julgo que poderemos esperar uma tensão normativa forte quanto ao núcleo central da soberania, isto é, quanto ao monopólio da força legítima – quanto a saber para que serve esse instrumento, em que circunstâncias pode ser usado e quem legitima essa utilização. É no fundo o agravamento da tensão trazida pela Carta da ONU e dramatizada de forma decisiva mais tarde, aquando das guerras de desagregação da Jugoslávia. É a questão da definição da responsabilidade de proteger, por exemplo, mas também a interrogação crítica sobre se a utilização da força contra a soberania de alguns estados em nome dos interesses e direitos dos seus nacionais não poderá transformar-se em instrumento ideológico dos fortes contra os fracos ou até de apropriação dos recursos destes. Seja como for, a problemática da utilização da força está no centro da ideia de complexidade crescente das relações internacionais que, mais do que uma lei, constitui um conjunto de emergências e tendências. A este propósito, vale a pena lembrar uma imagem recente – a primeira revista às forças armadas da nova ministra da defesa do governo de Espanha, Carme Chacón. Há algo de profundamente novo no discurso de segurança e de utilização da força legítima do estado soberano imanente nesta imagem, a de uma mulher grávida de oito meses a passar revista às forças armadas. O seu poder de invocação é enorme, e desestabilizador do status quo, ao mesmo tempo. E traduz toda uma nova concepção do que está em causa na segurança global e de como há que proceder politicamente para a produzir de forma eficaz e coerente com a alteração de paradigmas. 7. De certa forma relacionada com a pergunta anterior, como interpretam as Relações Internacionais a aparente decadência dos fins do Estado, assim como o próprio fim do Estado?Não há uma interpretação da disciplina de Relações Internacionais quanto ao estado, até porque grande parte do que ainda é a ortodoxia disciplinar parte do princípio de que essa é uma questão reducionista. Refiro-me claro está ao neo-realismo que se assume como paradigma estruturalista e que tem uma abordagem claramente sistémica: as características dos estados são irrelevantes porque o que condiciona por igual a decisão política e as interacções entre soberanias é a anarquia, a ausência de um poder que se imponha a todos os estados. A questão da redundância da soberania já é mais relevante no liberalismo, que tende para festejar o fenómeno como resultado da transferência da eficácia política e económica para o nível superior do transnacional: empresas, organizações especializadas (FMI, Banco Mundial, OMC) e mercados integrados. Como as crises financeiras do virar do milénio no Sudeste Asiático, na Rússia e na Argentina - e como a anunciada crise alimentar no Terceiro Mundo em função da subida dos preços dos alimentos – não podem deixar de tornar evidente, o clima celebratório quanto ao fim do estado está em revisão, até porque a produção de justiça, segurança e bem-estar material não pode deixar de começar ao nível do estado, que tem que funcionar como corrector das injustiças e das falhas do mercado. A criação de uma comunidade internacional enquanto grupo humano coeso e base de uma qualquer futura legitimidade política global não dispensa o estado como produtor de cidadania, justiça e segurança para os mais frágeis, por muito que o ‘global’ já seja um espaço político onde estes valores vão sendo produzidos. Desta forma crítica, evita-se em meu entender a dimensão algo ingénua ou utópica de muitas das abordagens hiperglobalistas. 8. A título pessoal, parece-me que o discurso académico das RI tem vindo a evoluir de uma mera análise do poder para, subtilmente, deslocar-se para a semântica do controlo. Numa realidade na qual as fontes de poder multiplicam-se a cada instante, pois os sucessivos avanços tecnológicos, permeabilidade das fronteiras, acesso e impacto de agentes subversivos como o ciberterrorismo, máfias transnacionais, alterações climáticas, etc., penso que torna-se significativamente mais difícil investigar as reais fontes de poder, assim como os melhores mecanismos para o projectar na comunidade internacional. Além do mais, actores cujas capacidades não abrangem de todo as capacidades reconhecidas aos Estados assumem hoje uma preponderância não adivinhada até ao final da Guerra-Fria. Será a procura de poder por poder a regra fundamental do jogo, ou antes o controlo de determinadas fontes e capacidades de poder o novo paradigma das RI?Os jogos que constituem as relações internacionais são jogos de cooperação e de conflito, mas é evidente que a problemática do poder é transversal a ambos tipos, a começar pela questão de saber qual o ambiente político que constitui o contexto em que as regras do jogo são consensuadas. É a problemática das hegemonias ou do soft power que está aqui em causa, e da transformação das organizações internacionais em instrumento de interesses hegemónicos globais, como foi o caso do FMI e do Banco Mundial na gestão das crises da dívida dos países da América Latina durante a década de 1980. É verdade que o Consenso de Washington foi durante muito tempo o nome do jogo aceite mesmo por aqueles que pouco tinham a ganhar com ele. Mas também é verdade que o jogo dá sinais de estar a mudar, por exemplo no compromisso global com os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e na definição de um novo consenso para o desenvolvimento – o Consenso de Monterrey – em que a obtenção daqueles objectivos no Terceiro Mundo serve de base para uma ajuda reforçada ao desenvolvimento. Dito isto, esta tendência integradora promete entrar em conflito com a corrida a recursos cada vez mais escassos como a água ou a energia fóssil, ou com a gestão das múltiplas consequências do aquecimento global, o que impede pensar que o ‘global’ está imune aos mecanismos de poder que perpassam o ‘internacional’. A multiplicação dos actores com capacidade para interferir no processo é que impõe uma visão mais complexa da noção de poder, já que não é possível entender como utópica, por exemplo, a capacidade da sociedade civil global para condicionar a agenda global nestes domínios. 9. A respeito das tradicionais teorias das RI, e seus modelos interpretativos, o que estamos a observar e com que direcção avançamos desde o final da Guerra-Fria? Será o unipolarismo o paradigma por excelência, ou antes testemunhamos um período de indecisão estratégica na esfera internacional? Conseguirá o novo equilíbrio multipolar de poderes que se avizinha manter afastada a lembrança da história sangrenta do século XX, ou cairá nos mesmos erros estratégicos de outrora?A tentação unipolar é isso mesmo, uma tentação de qualquer grande potência com capacidade suficiente para condicionar as regras do jogo, ou seja, para definir a ordem internacional de acordo com os seus interesses e prioridades. A questão anda associada ao papel dos Estados Unidos no mundo, e muitos pensadores contemporâneos têm reflectido sobre o que fazer com o poder dos Estados Unidos. Mais recentemente, esta tentação unipolar materializou-se na guerra contra o Iraque, com a administração Bush claramente convencida de estar obrigada a decidir num contexto típico de dilema de segurança em que a sobrevivência física da comunidade nacional era o valor em jogo. É um caso de manual, em meu entender, que deve ser estudado para perceber o tal fenómeno de que a realidade – os factos – não fala por si mesma; antes, ela é constituída pelos significados que os actores lhe atribuem em circunstâncias muito concretas. É por isso mesmo o exemplo de como as teorias constroem a realidade social e política, que parece neutra mas que não tem o mesmo significado para quem adere a pressupostos diferentes, a começar pelo optimismo ou pessimismo antropológico. Apesar desta tentação, e muito em virtude das lições que não deixaram de ser aprendidas com as consequências da invasão do Iraque, o mundo em que vivemos é de multilateralismo cada vez mais complexo, é neste contexto que cada vez mais todos falam com todos – estados, sociedade civil, organizações internacionais, sector privado – e produzem governação global. Não desaparecem os conflitos de interesse, mas há cada vez mais oportunidades institucionais para criar o habitus da resolução pacífica de diferentes tipos de conflitos e da sua prevenção atempada. Neste contexto, a emergência da sociedade civil com capacidade de interferir na governação global é uma garantia de que pelo menos alguns dos erros do passado poderão ser evitados. 10. Por último, o que antevê o Professor para este século XXI? Veremos reforçado o diálogo Norte-Sul, ou optaremos antes por um novo Leste-Oeste? Que futuro esperar para os BRIC, assim como as actuais major players? Que futuro para a comunidade internacional?De certa forma, já fui respondendo a esta questão através das anteriores. Ainda assim, parece-me de destacar que vivemos num ambiente de contestação política global protagonizada por diferentes tipos de actores e onde têm cabimento as dinâmicas que a pergunta descobre mas também muitas outras. A contestação diz respeito à definição de normas e mecanismos de decisão que governam a produção e a distribuição de justiça, segurança e bem-estar material à escala global. Neste processo global de contestação, a lógica não é determinista nem teleológica; há lugar para divergências e convergências, para o diálogo Norte-Sul mas também para o conflito Norte-Sul, para o diálogo Ocidente-Rússia mas também para o conflito entre os dois, para a cooperação transatlântica mas também para repentinos brotes de incompreensão ou mesmo conflito entre os dois lados do Atlântico Norte. Por seu lado, os BRIC prometem trazer novas questões à agenda global, e já conseguiram travar mesmo as negociações para a conclusão da ronda de Doha na Organização Mundial do Comércio por entenderem que os seus resultados não serviam os seus interesses. Contudo, a acção do Brasil, da Índia, da China e de outras potências emergentes não garante, por si só, a alteração do equilíbrio político global em favor do vasto Terceiro Mundo. Mais frequentemente, as potências emergentes, estas ou outras, decidem e actuam como aquilo que já são ou que aspiram ser, grandes potências e, por conseguinte, sem consideração especial pelos interesses legítimos dos mais vulneráveis. O futuro da comunidade mundial, ou simplesmente a possibilidade da sua concretização como espaço político mais integrado, parece-me jogar-se hoje na capacidade de pressão da sociedade civil mundial sobre os governos e organizações internacionais, assim como na sua capacidade de mobilização de recursos para produção de justiça global. Trata-se, em meu entender, do recurso crítico que define a rede de movimentos e organizações que actuam no terreno em nome de uma agenda alternativa de segurança humana, de desenvolvimento sustentável e de empowerment comunitário dos mais vulneráveis em cada sociedade nacional. O que faz dele um recurso crítico é o facto de que vai suprindo a incapacidade, ou a falta de vontade, de muitos estados para desempenharem as funções básicas para que foram criados. E sobretudo o facto de que vai produzindo, todos os dias, um mundo melhor para muitos.
 Entrevistas anteriormente publicadas:
EM PORTUGUÊS:
- Professora Doutora Raquel Patrício - A Emergência Brasileira nos contextos América Latina, EUA e Lusofonia [VER]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - As RI Brasileiras Históricas e Contemporâneas [VER]
- Vice-Almirante Alexandre Reis Rodrigues - A Marinha Portuguesa no Século XXI [VER]
- Professor Catedrático José Adelino Maltez - Assuntos Vários [VER]
- Professor Mestre Isabel David - A Importância da Europa Oriental nos Contextos Regional e Mundial [VER]
- Professor Doutor Estevao de Rezende Martins - A História e a Filosofia do Mundo Contemporâneo [VER]
IN ENGLISH:
- Professor PhD. James R. Russell - The Armenian and Pre-Islamic Iranian Civilizations[READ]
- Professor PhD. Raquel Patrício - The Brazilian Emergence in respect to Latin America, the USA and Lusofonia [READ]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - The Historic and Modern Brazilian International Relations [READ]
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