Caros leitores,
Eis o primeiro Sábado do mês de Junho, um novo dia para uma nova entrevista. O tema não é mais do que a construção das ideias daquilo que na sua heterogeneidade e diversidade chamamos realidade, num mundo que encerra bolhas de irrepetibilidade criativa e espontânea nessa multiplicidade de fenómenos que nos são devidos estudar. Após algumas considerações feitas sobre o primeiro mês de publicações, muito me apraz trazer-vos uma tema que por terras lusas é parcamente abordado. Quando o é, a designação de Teoria da História ou História das Ideias não passa de uma atribuição rocambolesca de um corpus teórico que justifica os fundamentos analíticos que distinguem fenómenos de epifenómenos, deslindando a quasi inextricável miríade de causas e efeitos que regem o universo social. A Física do Espírito entende-a a Filosofia, que nas suas variadas vertentes histórica, política, metafísica, etc., puxa de muitas lentes para observar uma mesma paisagem humana imutável na sua própria essência. Será sobre esse espairecimento auto-reflexivo que nos move enquanto sociedade política que reflectirá esta entrevista com o Professor Doutor Estevao de Rezende Martins, um reconhecido académico brasileiro com formação nas melhores escolas europeias da especialidade e cujo célere apoio à presente iniciativa é de louvar, especialmente quando tão ilustre e importante contributo versa sobre matérias muito dificilmente abordadas noutras circunstâncias. Nesse seguimento, o limite auto-imposto de 10 perguntas pareceu-me um tanto desajustado à extrema riqueza de conteúdo que um debate sobre a Teoria da História traria à colação. Deixando apesar de tudo um útil instrumento para posterior investigação, devo expressar o meu sincero anseio em abordar este e outros tópicos numa próxima oportunidade, quer através de um simples mail, quer pessoalmente na universidade onde lecciona. Assim divulgando aquele que deverá ser o próximo passo nesta aventura académica, estou certo de avançar com redobrado empenho e superior qualidade extraída de uma das mais conceituadas instituições de ensino superior da América Latina. A julgar pela riqueza teórica de um dos seus, terá sido certamente uma escolha irrepreensível. Por ora publico esta entrevista, numa busca ad eternum pelo Graal do Conhecimento. Nome: Estevao Chaves de Rezende Martins Nacionalidade: Brasileira Formação: Doutoramento em Filosofia e História na Ludwig Maximilian Universität München, Alemanha Instituição: Universidade de Brasília Curriculum Vitae disponível onlineBibliografia seleccionada:- MARTINS, E. C. R. . Studien Zu Kants Freiheitsauffassung In Der Vorkritischen Periode (1747-1770).. MUNIQUE - AUGSBURGO: BLASADITSCH, 1976. 00325 p.
- MARTINS, E. C. R. . A propósito da social-democracia. 1. ed. Brasília: Instituto Teotônio Vilela, 1997. v. 1. 12 p.
- MARTINS, E. C. R. . Relações internacionais: cultura e poder. 1. ed. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais/Fundação Alexandre de Gusmão, 2002. 183 p.
- MARTINS, E. C. R. (Org.) . Relações Internacionais: Visões do Brasil e da América Latina. 1. ed. Brasília: IBRI/FUNAG, 2003. 480 p.
- MARTINS, E. C. R. (Org.) . Memória, Identidade e Historiografia. Brasília: PG de História da Universidade de Brasília, 2004. v. 1. 235 p.
- MARTINS, E. C. R. (Org.) ; BRIGNOLI, H. P. (Org.) . Teoría y metodología en la Historia de América Latina. 1. ed. Madri: Editorial Trotta - Ediciones Unesco, 2006. v. 1. 334 p.
- MARTINS, E. C. R. . Cultura e Poder. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. v. 1. 152 p.
1. Sendo um eminente filósofo e internacionalista, especialista no legado kantiano, a altura não podia ser mais acertada para debatermos os princípios da paz, da moral e da responsabilidade numa humanitas verdadeiramente globalizada. No entanto, a importância de tais conceitos não reside na sua actual observância, senão na sua inobservância generalizada. À luz destes conceitos, como consideraria a presente sociedade internacional? Existirão os fundamentos necessários para uma paz durável, ou viveremos sob a ordem saída do último grande conflito?Malgrado a sensação de o mundo ter-se tornado efetivamente global pela circulação de informações e pela mobilidade dos segmentos mais afortunados das sociedades, estamos longe de poder falar em uma “sociedade internacional”. Existe um conflito latente entre a consideração da sociedade humana pelo viés metafísico (somos todos essencialmente iguais) e a consideração das sociedades marcadas pelas sucessivas etapas de sua diferenciação histórica (no mais das vezes pela negação do outro quando não do combate sem quartel a ele). Costumo lançar mão de uma distinção entre o horizonte de expectativa, inspirado em R. Koselleck e em J. Rüsen, dois expoentes da teoria contemporânea da História, e a experiência concreta da realidade histórica, política, econômica e social. O ideal kantiano de uma paz perpétua busca superar o mosaico das afirmações sociais e estatais, umas contra as outras, pela proposta de recorrer a uma espécie de utopia contemporânea: o mundo cosmopolita não pode ser nacional nem particular. A experiência histórica acumulada, contudo, é nacional (quando não nacionalista) e amiúde decorrente de projetos particulares de hegemonia (inicialmente interna, em seguida externa). Pode-se ainda dizer que, no plano político internacional, a utopia da igualdade (expressa no lema da Revolução Francesa e apropriada pelo discurso político generalizado), ainda continua acantonada no plano da retórica. As grandes decisões da ONU e da OMC refletem essa dialética conflituosa entre o otimismo da metafísica política e o pragmatismo (também chamado de realismo) das atuações dos estados e de seus governos. Não se pode afirmar que se viverá indefinidamente sob a (des)ordem decorrente do desaparecimento da Guerra Fria, tal como se a conheceu da 2ª. Grande Guerra até 1990. Por outro lado, menos de vinte anos se passaram na busca de uma nova forma de convivência internacional, sob a égide do afã de fazer negócios e de aumentar indiscriminadamente a lucratividade dos empreendimentos, etiquetado de “neoliberalismo” ou de “globalização”. Um exemplo disso: todas as restrições ético-políticas que o Ocidente fazia (e, teoricamente, ainda faz) ao regime político da China continental foram aparentemente postas entre parênteses, relegadas a um limbo oportunista, cedendo lugar às oportunidades de negócio. Quanto à paz durável: parece-me que, se até a metade do século 20, fazer a guerra terá sido um “bom negócio”, hoje em dia o “bom negócio” é justamente a preservação das relações pacíficas. De outra forma, prejudicar-se-ia a lucratividade, na visão que me parece prevalecer entre os grandes mercadores (energia, matérias primas, alimentos, transportes e comunicações, bens de consumo durável). Como a função de toda utopia é temperar o desvio do presente com a perspectiva do equilíbrio do futuro, acredito ser ínsito à natureza humana o esforço contínuo de buscar a ilha de lugar nenhum e de tempo nenhum para poder melhorar a ilha d’aqui e d’agora. Um exemplo disso: a transformação da convivência das “ilhas” constantemente em contenda, da Europa, em um “arquipélago de articulações” (a União Européia), de que ninguém dizia, há setenta anos, ser possível. Se foi, porque não seria possível transformar o mundo, de nau dos insensatos, em arquipélago de interdependência? O que não se pode: esmorecer. 2. No âmbito da Filosofia Política, os fundamentos que animam o conjunto de práticas e decisões dos vários actores das relações internacionais têm vindo a evoluir para uma maior transparência face à opinião pública internacional, e pela procura constante de mecanismos de legitimação a quaisquer acções prosseguidas exteriormente pelos Estados, ou por organizações intergovernamentais e não-governamentais. No tradicional debate entre o Realismo vs. Idealismo, qual dos paradigmas julga caracterizar em maior grau a sociedade internacional?Se o pressuposto da igualdade fundamental dos indivíduos deve ser aceito, a contraposição idealismo/realismo, embora existente, deve ser superada. Sou muito favorável a uma espécie de neo-contratualismo, frequentemente conhecido sob o nome de construtivismo. Não um construtivismo entendido como o arbitrário “construído” desordenadamente pela idiossincracia deste ou aquele indivíduo, deste ou daquele governante, deste ou daquele país. Tampouco considero viável a adesão (mesmo se condicional) à liderança “automática” do grande, do poderoso, do mais forte. Esse raciocínio reproduz a lógica das hegemonias unilaterais (mesmo se há mais de uma concorrendo com outra, como foi o caso mais recente da Guerra Fria, mas também foi o caso das épocas de “paz armada” até pouco antes da 2ª. Guerra) – e não deve ser adotado. A lógica do respeito mútuo começa na dignidade da pessoa humana (e nas teorias dos direitos humanos) e deve continuar até as relações entre governos e estados (não creio que o formato da organização política das sociedades em “estados-nação” desapareça rapidamente, mesmo se a sua origem está marcada por mundos definitivamente superados). Assim, se o projeto de uma sociedade internacional deve reunir dos inuits aos pigmeus, dos quechuas aos buriates, dos norte-americanos aos sul-africanos, dos latino-americanos aos asiáticos, dos europeus aos árabes, deve haver a construção (o contrato) compartilhada (cosmopolita) de um mundo em que o sistema de gestão de alguma forma equacione a história sagrada da autonomia e da soberania nacionais. Talvez encontre-se aqui mais um elemento utópico a promover a dinâmica de um eterno tricotar um novo tipo de colcha de Penélope. Uma vez mais: a perseverança na construção compartilhada e a lealdade aos princípios da equipotência são componentes que se contrapõem à história empiricamente acumulada – e é esta que marca os espíritos dos agentes, na transmissão dos legados culturais. A meu ver, a lógica dos decisores internacionais continua sendo a de Vestfália/Viena/Versalhes, magraldo o bálsamo retórico do discurso igualitário. 3. Muitos autores alegam que, com o advento de uma sociedade verdadeiramente global, os valores que inspiram as relações existentes entre os vários actores tenderiam a harmonizarem-se e, eventualmente, a homogeneizarem-se. Com vários fins da História anunciados, especialmente ao longo do século XX, mas nenhum a efectivar-se, quais projecta serem as principais tendências da sociedade internacional contemporânea? Eternização do conflito, criação de um super-Estado, ou outras?Para um historiador, é missão impossível profetizar do que será feito o amanhã. A máxima de Cícero, historia magistra vitae, pode ser entendida tanto como confirmada quanto como desmentida. Confirmada, pois muitos entendem que a história de sucesso de um líder ou de um país, mesmo à custa do sofrimento ou do aniquilamento de outros, incita ao mimetismo de “ser agora a minha vez de mandar”. Dos antigos persas a George W. Bush, mudaram os meios, ficaram as manias. O desmentido viria da concepção moral da história, de que dos erros do passado se deve aprender o comportamento correto de hoje e de amanhã. É nesse contexto que se repetem os bordões, após as experiências traumáticas, de “nunca mais”. A hipótese de um super-estado pode estar contaminada pelo mimetismo estrutural próprio aos estados hegemônicos da tradição política atual. Penso que a tendência deveria estar na consolidação das fórmulas federais de poder compartilhado, com aplicação, por exemplo, da complementaridade produtiva e da subsidiariedade política. Isso no plano da política de gestão institucional. No plano da sociedade em geral, creio que somente um processo comparativo de entendimento intercultural tem chances de promover uma aproximação entre as diversas formas de convivência das comunidades humanas entre si. Talvez se encontre nesse ponto um determinado grau de otimismo, quiçá de ingenuidade. Assumo o otimismo, rejeito a ingenuidade. Ao se constatar os notáveis progressos de convivência feitos por comunidades que até há ainda poucos decênios se digladiavam, pode-se conceber alguma dose de otimismo quanto ao progresso ainda por fazer – mesmo se tal opera com uma perspectiva (positiva) de utopia e com a constatação que a dinâmica do processo histórico é contínua, sem fim previsível. 4. De entre esses vários fins da História, dos quais realçaria os do mundo islâmico (com a Revolução Islâmica de 1979), o dos marxistas-leninistas (que desembocaria numa sociedade comunista mundializada), e o de Francis Fukuyama (conforme obra do mesmo nome), cada qual contribuiu sobremaneira para a evolução das relações internacionais. Qual a opinião do Professor sobre o papel da Teoria da História na análise das RI?A dinâmica do processo histórico é contínua. Projetos de pretensão absoluta, como o das Luzes (mesmo se tencionava ser o inverso do absolutismo dos reis) ou dos totalitarismos (em especial em sua versão marxista) – por vezes com lances dramáticos de sofrimento e destruição, como nos grandes conflitos armados, nos genocídios, nas perseguições – permitiram constatar a contrario sensu, o sentido das perspectivas orientadoras quanto às finalidades do agir e das organizações sociais. Esse sentido está na multiplicidade de opções possíveis e na indefensabilidade do modelo único. A leitura teórica dos processos históricos, devidos ao agir racional humano, aponta para a admissão de um pressuposto fundamental nas relações internacionais: o da concorrência entre projetos de sociedade, de economia, de política, de gestão das relações intersociais e interestatais. Essa multiplicidade de opções decerto exige que se respeite a equivalência teórica entre as propostas e as soluções dialogais para a concorrência entre os projetos. A Teoria da História, tomada estritamente, refere-se à epistemologia própria à ciência da História. Nas relações internacionais ainda se carece de uma teoria que qualifique epistemicamente a disciplina acadêmica, fortemente marcada pela associação de disciplinas com identidades outras, correlacionadas ao campo de estudos das RI (política, direito, economia, história, principalmente). O campo de estudos das RI vê-se assim constantemente desafiado a constituir-se com identidade própria pelas transformações aceleradas por que passa o mundo contemporâneo, notadamente nos últimos 20 anos. Diretamente, não me parece que as “teorias do fim do mundo” (ou do “fim da história”) tenham a ver com essa consolidação do campo. Por outro lado, reconhece-se que uma teoria “otimista” sofre duros golpes com as intolerâncias, os conflitos, os fundamentalismos, lamentavelmente persistentes. 5. A “velha” Europa, fértil nessas utopias, é herdeira directa dos Projectistas da Paz, que, à semelhança de Kant, edificaram os principais fundamentos dessa ordem internacional onde a paz imperasse a despeito da multiplicidade de vozes, histórias e sonhos dos povos. A União Europeia, contudo, parece trazer alguma justiça a esse legado mais humanista e universalista no qual o projecto comunitário é uma aproximação pragmática aos princípios legitimadores da Paz eterna. Para si, qual o verdadeiro feito da UE: contenção política, unidade económica ou respeito cultural?Como matriz cultural do sistema político, econômico e social contemporâneo, a Europa é uma entidade abstrata, uma espécie de patrimônio coletivo. Europeus foram capazes de propor as mais belas concepções do homem (como os direitos) e de perpetrar os mais horrendos crimes (como o Holocausto). Foram igualmente capazes de fertilizar o mundo com sua expansão e de o contaminar com a escravidão. Somente a segunda metade do século 20 trouxe uma virada de página perceptível quanto à longa inércia de ver a pax perpetua como uma pax europea, mesmo se mediada por uma pax americana. É certo que somente a União Europeia parece tematizar, com consciência crítica, seu papel na reconstrução do prestígio de uma Europa cuja matriz de valores agora recobra novo brilho, malgrado resquícios (de autodefesa?) protecionistas em diversos campos. A contenção política e a unidade econômica são a via aurea de redenção da Europa política. O respeito cultural implica um grau de complexidade com o qual as antigas sociedades “proto-europeias” ainda não parecem lidar de modo suficientemente convincente. E isso não se refere apenas às comunidades presentes nos países europeus, a eles vindas por causa de esses países, quando metrópoles coloniais, se haverem imposto às sociedades originárias dessas comunidades e promovido a idealização de seus modelos como paradigmas de felicidade. Refere-se igualmente às assimetrias de consideração e de trato que certas sociedades “proto-europeias” cultivam com relação a outras sociedades tão europeias como elas. Dois exemplos: a desconfiança com que as sociedades dos países europeus “centrais” miram as dos países “periféricos” (ou seja: economias mais desenvolvidas, como a alemã ou a francesa ou ainda a britânica, com respeito às menos desenvolvidas, como a polonesa, a romena ou a búlgara, nos dias de hoje; ou a grega, portuguesa, irlandesa ou espanhola, há poucos decênios) e o estranhamento aparentemente primevo que o ocidente europeu parece cultivar com relação às sociedades do leste do continente. E ainda remanesce aberta a questão de saber onde começa e onde acaba a Europa, culturalmente – não apenas, de modo banal, territorialmente. Boa parte da solução dessa questão passa pela decisão político-cultural de saber se a Turquia é ou não europeia. A decisão econômico-militar já foi tomada em 1949, segundo a qual a Turquia é muito bem europeia e “ocidental”. A pax perpetua depende, assim, de uma europeidade estrutural mais do que da conjuntural. 6. Ainda relacionado com essa história das ideias, da cultura e identidade como elementos modificadores e definidores de Poder, o abraço armilar, enquanto utopia lusófona cultivada ao longo de vários períodos nos últimos séculos, mas essencialmente através do período das Descobertas, é uma tradição parcamente analisada por teóricos contemporâneos. Como autor e como brasileiro, como encara o legado do conceito de abraço armilar? Dará voz a uma maneira própria de ver o mundo, uma maneira baseada na Língua Portuguesa?Malgrado o entusiasmo que a representação cultural da lusofonia desperta (sobretudo) em Portugal, quero crer que o grau de consciência de pertencermos a uma “comunidade lusófona”, envolta por um multissecular “abraço armilar” está longe de ser grande. Tenho a nítida impressão que a memória da glória passada faz vibrar em Portugal (mais do que em qualquer outro país de língua portuguesa) o sentimento de uma grandeur (à semelhança da França) que, nos dias de hoje, não surte o mesmo efeito catalisador quer se pensa poder esperar. Para as dimensões políticas e econômicas do Brasil, de Angola ou de Moçambique (guardadas as devidas proporções), por exemplo, o pertencimento de Portugal à União Europeia resultou em mais dificuldades do que em mais facilidades. Os cidadãos conscientes de uma pátria lingüística portuguesa são, talvez infelizmente, bem menos numerosos do que os que usam a língua portuguesa. O conflito que envolveu até há poucos dias o acordo ortográfico (fundamentalmente objeto de oposição em Portugal) demonstra, para mim, o quanto o entendimento de uma pátria cultural comum está distante da consciência coletiva, mui principalmente entre aqueles de que o “abraço armilar” teria partido. Ver o mundo à maneira da língua portuguesa tem um componente surreal, para mim. Se o português é a última flor do Lácio, está longe de estar no primeiro plano internacional. A lingua franca de hoje é o inglês (ou o americano, como já há tempos aparece nas informações sobre as traduções de livros). O português (ou o brasileiro, como parece ter sido brandido nas lides pelos opositores ao acordo ortográfico) é, com efeito, patrimônio comum dos seus falantes. Acordos estatais são reguladores de práticas de comércio. Não controlam o falar, nem o pensar. Não se põem em rimas nem em prosa. As paixões em torno deles, contudo, deixam entrever possível lacuna de maturidade nessa cidadania cultural. 7. Não obstante, quer acreditemos nessa comunhão de heranças passadas e valores, ou não, o que é certo é que, no círculo de comunidades lusófonas, a memória e a identidade brasileira em muito pouco se comparam ou assemelham à imagem auto-projectada dos portugueses, ocorrendo o mesmo entre estes e os cabo-verdianos, etc. Enfim, a cada povo a sua história e seu futuro. Como caracterizaria o contributo da experiência e vivência brasileira no mundo do poder? Poderemos falar de uma vertente brasilianista das relações internacionais, numa cultura política diferente daquela dos seus vizinhos sul-americanos?Uma das características da evolução recente das relações internacionais e da miscigenação cultural é a sua crescente cosmopolitização. Podemos, sim, falar de uma vertente analítica das relações internacionais construida no espaço de reflexão brasileiro. Essa reflexão fez-se no universo acadêmico, fortemente marcada pela perspectiva histórica (menos pela tradicional perspectiva politológica e ainda menos pela comercial), em diálogo, originalmente, com a escola francesa de história das relações internacionais. A reflexão não se prendeu aos chavões nacionalistas e associou um profícuo intercâmbio com pensadores da Argentina e do Chile. Logo adveio o debate com as tradições britânica e americana. Esboça-se uma aproximação com a academia portuguesa. O Brasil contemporâneo busca haver-se com quatro grandes frentes de trabalho, duas das quais no plano externo. No plano interno, a regularização do processo econômico e a correção das desigualdades sociais – séculos a rever. Externamente, há a necessidade de refazer a equação das relações com o “gigante do Norte” (Estados Unidos), após dezenas de anos de diversos tipos de dependência (o que não faz do Brasil um caso isolado, aliás). Outra é a necessidade de construir um sistema de alianças em que o Brasil articule convergência de interesses estratégicos regionais (sul-americanos) e supra-regionais (África do Sul, Índia, China, Rússia). Desde meados dos anos 1990 o país certamente aponta para uma postura internacional favorável à concertação multilateral, sem laivos de umbilicalismo nacionalista (em que parecem de alguma maneira terem recaído a Venezuela, a Bolívia e o Equador; no caso da Venezuela, além de um neo-nacionalismo camuflado de internacionalismo “bolivariano”, tem-se uma inegável tendência neo-imperialista calçada na riqueza gerada pelo petróleo). 8. No contexto regional da América do Sul, quais pensa serem os fundamentos da integração em projectos comunitários sócio-económicos? Será a integração o caminho para um crescimento em maior grau, tanto dos países em particular como da região como um todo?Não vejo, sob as condições do mundo de hoje, alternativa aos projetos de integração. Falta ainda, no espaço americano, a experiência da eficácia da subsidiariedade e da complementaridade. Em todos os planos: produção econômica, participação política, associação de infra-estruturas, compartilhamento de matrizes energéticas. Não se deve, por outro lado, esquecer que as dimensões geográficas e as assimetrias sócio-econômicas são gigantescas e as tarefas, correspondentemente, hercúleas. Da experiência europeia deve-se haurir a lição da persistência, da perseverança, da prudência. 9. A tese dos BRIC, de Sachs, demonstra bem o percurso recente e potencialidades de futuro do Brasil. Como economia e potência emergente, quais pensa serem os principais obstáculos já ultrapassados, e quais aqueles ainda por ultrapassar para que consolide essa posição?A principal dificuldade superada pelo Brasil, a contar de 1994, foi a desordem econômico-financeira. Quatorze anos depois, pode-se dizer que a absoluta maioria dos brasileiros experimentou, pela primeira vez, uma economia estável, em crescimento e com uma moeda e um ambiente financeiro sãos. Fora disso, que nada tem de pouco, falta muito. Cito duas carências que ainda requerem esforços continuados e sérios: o desenvolvimento ecologicamente sustentável (para não reproduzir os imensos erros cometidos no desenvolvimento econômico da Europa, desde a Revolução Industrial, nos Estados Unidos e no sudeste asiático) e o salto qualitativo da sociedade de conhecimento (com a pesquisa científica e a inovação tecnológica). 10. Para terminar, pergunto ao Professor qual a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico que em Portugal está a gerar tanta discórdia, mas cuja recepção no Brasil parece ter suscitado menos controvérsia. Encontra-se favorável à completa implementação dos preceitos referidos no Acordo para toda a comunidade lusófona, ou o documento desvirtuará as especificidades regionais de cada vertente linguística e cultural?Mencionei o acordo na resposta a uma das perguntas anteriores. Sou plenamente favorável ao acordo, pois ele regulará uma plataforma comum de entendimento administrativo para a escolarização, para a produção de textos publicados no universo editorial (jornais, revistas, livros) e na linguagem oficial. Isso em nada impedirá o dinamismo da linguagem, de seu uso, de suas pronúncias, de seus regionalismos, de seus sotaques, de seus vocabulários marcados por heranças diversas. É ilusório achar que a pactuação formal da linguagem culta coloca a linguagem viva das ruas numa camisa de força. Nem a escola suprime os erros de concordância ou sintaxe que o falante do português coloquial comete impensadamente. Ortografia não tolhe o falar nem a semântica. Pelo contrário, um dia a ortografia apenas fará o registro (ou o registo...) do que terá dito Antônio ou António... Se a pretensa ameaça do desvirtuamento fosse real, sequer se poderia falar em instrução pública regulada e provida pelo Estado (onde quer que se esteja), tampouco em norma culta da língua.
 Entrevistas anteriormente publicadas:
EM PORTUGUÊS:
- Doutora Raquel Patrício - A Emergência Brasileira nos contextos América Latina, EUA e Lusofonia [VER]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - As RI Brasileiras Históricas e Contemporâneas [VER]
- Vice-Almirante Alexandre Reis Rodrigues - Portugal e a Marinha Portuguesa no Século XXI [VER]
- Professor Catedrático José Adelino Maltez - Assuntos Vários [VER]
- Mestre Isabel David - A Importância da Europa Oriental nos Contextos Regional e Mundial [VER]
- Doutor Estevao de Rezende Martins - A História e a Filosofia do Mundo Contemporâneo [VER]
- Doutor Marcos Farias Ferreira - Os Fundamentos da actual Teoria das Relações Internacionais [VER]
- Doutor Amado Luiz Cervo - A História da Inserção Internacional do Brasil [VER]
- Doutor James Robert Russell - As Civilizações Arménia e Irania pré-Islâmica [VER]
IN ENGLISH:
- PhD. James R. Russell - The Armenian and Pre-Islamic Iranian Civilizations [READ]
- PhD. Raquel Patrício - The Brazilian Emergence in respect to Latin America, the USA and Lusofonia [READ]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - The Historic and Modern Brazilian International Relations [READ]
- Vice-Admiral Alexandre Reis Rodrigues - Portugal and its Navy in the XXI Century [READ]
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