Caros leitores,
Em vésperas de exames, este período entre Junho e Julho é efectivamente de grande azáfama para qualquer docente ou discente envolvido em questões académicas. Como não poderia deixar de ser, também no Nostrum Tempus é possível notar alguma dessa regressão na disponibilidade em continuar a publicar diariamente artigos sobre as mais diversas matérias, e sobretudo na prossecução dos projectos recentemente iniciados como é o caso do Spatium10 e Hereditas. No entanto, a prudência fez precaver-nos sobre este interregno que se avizinha e possibilitou o "aprovisionamento" de algumas entrevistas a ilustres académicos que entretanto foram tendo a amabilidade de responder às nossas perguntas.
Como tal, é nessa senda pela aquisição e divulgação de conhecimento das Relações Internacionais, independentemente das áreas de estudo, que procuramos reunir a experiência e provado génio académico dos mais variados autores, que apresentamos o Professor Doutor Amado Luiz Cervo. Com parcos sucessos em terras lusitanas, é novamente em Vera Cruz, nomeadamente na Universidade de Brasília, que encontramos um excelso exemplo de valor científico meritório aliado a uma franca amabilidade em contribuir junto da comunidade académica, mesmo que nós aqui não representemos a comunidade portuguesa mais do que a brasileira, angola, moçambicana, etc. Como as estatísticas relativas à leitura das anteriores publicações têm demonstrado, a audiência é inclusive bastante diversificada em termos de latitudes. Contudo, aproximando-se finalmente o período de confirmação da nossa realização de estudos por um semestre curricular na UnB, não seria de admirar algum redireccionamento do spiritu do Nostrum Tempus nesse sentido. De qualquer, é sempre valor acrescentado trazido e dinamizado, mais do que uma tendência mal gerida.
Mas o que importa para a presente entrevista não é mais do que a demonstração de reflexão ímpar sobre a agenda internacional do Brasil e suas múltiplas dimensionalidades. Patente no decorrer de outras entrevistas, das quais destacaria aquelas com o Professor Emeritus Moniz Bandeira, Professor Doutor Estevao de Rezende Martins e Professora Doutora Raquel Patrício, é inolvidável a dedicação e cultivo de uma percepção internacional brasilianista integrada nas grandes correntes intelectuais da temática e que não só acompanha as principais problemáticas em termos de política externa brasileira, como a desenvolve e prepara para os futuros desafios do século XXI. Em suma, a experiência curricular e profissional do Professor Amado Luiz Cervo encerra o inestimável valor que a Academia brasileira presta à delimitação de estratégias de actuação e planeamento de agendas e prioridades com que o Brasil se depara na arena internacional.
Esperamos que esta entrevista faça alguma justiça a esse mote. Nós acreditamos que sim, enquanto colocará simultaneamente sérias dificuldades à continuação de divulgação de entrevistas de igual qualidade. Eis, sem mais demoras, a entrevista:
Nome: Amado Luiz Cervo
Nacionalidade: Brasileira Formação: Universidade de Strasbourg Instituição: Universidade de Brasília Departamento: Instituto de Relações Internacionais Ver Curriculum Vitae onlineBibliografia seleccionada:- Inserção internacional: formação dos conceitos brasileiros. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. v. 1. 297 p.
- Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas. 2. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2007. v. 1. 238 p.
- BERVIAN, P. A. ; DA SILVA, R. . Metodologia Científica. 6. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2006. v. 1. 162 p.
- BUENO, C. . História da política exterior do Brasil. 3. ed. Brasília: EdUnB, 2006. v. 1. 525 p.
- (Org.) . Universidade no Mundo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004. 605 p.
- (Org.) . Universidade em questão. 1. ed. Brasília: EdUnB, 2003. v. 1. 515 p.
- RAPOPORT, M. ; HEREDIA, E. A. ; MADRID, E. ; DORATIOTO, F. ; BANDEIRA, M. . El Cono Sur. Una Historia Común. 1. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2002. v. 1. 368 p.
- MAGALHÃES, J. C. . Depois das Caravelas: as relações entre Portugal e Brasil, 1808-2000.. 1. ed. Lisboa: Instituto Camões, 2000. v. 1. 307 p.
- RAPOPORT, M. . História do Cone Sul. 1. ed. Rio de Janeiro: Revan, 1998. v. 1. 334 p.
- (Org.) ; ROLLAND, D. (Org.) ; SARAIVA, J. F. S. (Org.) . Le Brésil Et Le Monde; Pour Une Histoire Des Relations Internationales Des Puissances Émergentes. 1ª. ed. Paris: Harmattan, 1998. v. 1. 251 p.
- (Org.) . O Desafio Internacional. 1ª. ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1994. v. 1. 358 p.
- (Org.) ; DOPCKE, W. (Org.) . Relações Internacionais dos Países Americanos; Vertentes da História. 1ª. ed. Brasília: Linha Gráfica, 1994. v. 1. 441 p.
- As Relações Históricas entre o Brasil e a Itália; o Papel da Diplomacia. BRASILIA: EDUNB, 1992. 262 p.
- BUENO, C. . História da Política Exterior do Brasil. 1ª. ed. São Paulo: Ática, 1992. v. 1. 432 p.
- BUENO, C. . A Política Externa Brasileira (1822-1985). 1. ed. SAO PAULO: ATICA, 1986. 96 p.
- O Parlamento Brasileiro e as Relações Exteriores (1826-1889).. BRASILIA: ED.UNIVERSIDADE DE BRASILIA, 1981. 254 p.
- Contato Entre Civilizacoes; Conquista e Colonizacao Espanholas da America.. SAO PAULO: MA CRAW-HILL, 1975. 146 p.
1. Comecemos pelo tema que constitui parte da animação com que esta iniciativa é realizada: as relações históricas e contemporâneas entre Portugal e o Brasil. Possuindo uma carreira extraordinária no âmbito da História, com especial ênfase no que diz respeito à América, certamente que nos poderá dar uma perspectiva diferente do momento definidor da relação Portugal-Brasil, a independência deste. Constituindo um tema geralmente deficientemente abordado nos vários níveis de ensino português, o célebre Grito do Ipiranga surge como um golpe palaciano efectuado por D. Pedro II de Portugal, mais tarde D. Pedro I, Imperador do Brasil, contra as pretensões da elite governante e comerciante portuguesa, mas com o aval de seu pai, D. João VI. Qual o papel das elites brasileiras nessa tomada de decisão algo ousada, não sem a influência britânica?O papel das elites brasileiros foi determinante, especialmente de José Bonifácio de Andrade, patriarca de Independência do Brasil. Ele percebia a irreversibilidade do processo de Independência encaminhado desde 1808 e a impossibilidade de o Brasil regredir à condição de colônica em que o desejava repor a chamada Revolução Portuguesa. D. Pedro I não teve opção, a não ser dar ouvidos às elites brasileiras. Em nada se assemelha isso tudo a golpe palaciano, mas à continuidade de um processo histórico. 2. É essencialmente nos moldes desse golpe palaciano que assistimos à manutenção da integridade territorial do Brasil, simultaneamente à desintegração das antigas colónias espanholas um pouco por toda a América. Existem fundamentos mais profundos para essa excepção à regra, ou a secessão da coroa sem grandes tumultos populares foi a chave para esse sucesso?A unidade territorial correspondeu a uma aspiração das elites brasileiras que utilizaram a monarquia brasileira para cimentá-la. Aliás, essas elites não conceberam de início a separação política de Portugal, mas uma Confederação de Nações Independentes, que incluiria colônias da África. Foi o mau cálculo das elites portuguesas que fez abortar essa idéia. 3. Nesse sentido, as relações bilaterais entre a capital Rio de Janeiro e Lisboa pautaram-se pela trilateralidade com Londres. Sofrendo inúmeros incidentes políticos internos, tanto Portugal como o Brasil recolheram-se para os assuntos internos e o Atlântico perdeu alguma parte do seu valor estratégico para ambas as nações. Quais as circunstâncias mútuas em que esse afastamento se deu ao longo de todo o século XIX?O Brasil se afastou de Portugal no século XIX em razão de incompatibilidade política. A Inglaterra teve papel importante para conciliar o conflito bilateral à época de Independência e evitar uma guerra mais prolongada, depois a relação triangular cessou. 4. Desde então, a América do Sul tem sido a prioridade das relações externas do Brasil. Numa região especialmente conturbada por vários problemas que contestam a centralização e eficiência do poder do Estado, como redes de narcotráfico, subdesenvolvimento, dívidas externas exorbitantes, etc., quais julga serem os principais obstáculos já ultrapassados nessa corrida pelo desenvolvimento, modernização e internacionalização da América do Sul, e em especial do Brasil?No século XIX apenas o Prata era importante para o Brasil em razão da definição das fronteiras e da geopolítica regional. A América do Sul adquire importância, lentamente, desde os anos 1930, mas somente no fim do século XX e no início do presente século a região cresce muito no conceito brasileiro. Constrói-se um projeto brasileiro de América do Sul como uma unidade econômica, política e de segurança, ou seja, um outro pólo de poder, ao lado da América do Norte, União Européia, Rússia e Japão-China-Índia. A visão ideal do mundo, nesse contexto, é de um mundo multipolar, no qual o poder se distribui por esses pólos e, desse modo, se possa realizar interesses de todos os povos, longe da imposição dos centros tradicionais de poder e em consonância com nova realidade das relações internacionais. 5. Paradoxalmente, a independência do Brasil veio demonstrar várias mudanças políticas similares àqueles assistidas em Portugal, demonstrando não só a partilha de um património cultural e político dos dois povos, como os seus valores civilizacionais e respostas a pressões externas. Coincidente com um processo de centralização do poder nalguma legitimidade democrática baseada no povo, e não num elemento aristocrático e/ou monárquico, as soluções governativas encontradas para cada Estado parecem reflectir essa noção de múltiplas realidades sociais que requerem abordagens diversificadas. A própria República Federativa é disso exemplo flagrante. Alguns autores argumentam que essa Constituição pedrista pós-independência era um documento modernista, e que não reflectia necessariamente as convicções políticas gerais, consideradas retrógradas, e mal representadas na Assembleia Constituinte. Como descreve o Brasil de então?Quanto à construção do Estado nacional após a Independência, considero relevante o papel pessoal de D. Pedro I ao outorgar uma Constituição, porém abrindo espaço às idéias liberais em voga então. O centralismo dessa constituição foi atenuado durante a Regência (1831-1840), quando efetivamente o Estado português importado à época da Independência foi nacionalizado e passou às mãos de dirigentes brasileiros. Um equilíbrio se estabeleceu entre o poder central e as províncias, por modo a manter a estabilidade das instituições até o fim da monarquia, em 1889. 6. Os desenvolvimentos durante a Guerra Maldita na década de 1860 mostram, mais do que realidades e fragilidades distintas dentro da sociedade brasileira, o ambíguo sistema de relações externas na América do Sul, especialmente entre as próprias antigas colónias do império espanhol. Poderemos afirmar que é multisecular a relativa neutralidade com que o Brasil interpretou os acontecimentos e posicionamento político dos seus vizinhos, e que a II Guerra Mundial e a Revolução Cubana vêm trazer um abanão nessa perspectiva reducionista, ou sempre existiu alguma promiscuidade regional em termos essencialmente ideológicos e políticos?Tanto o Brasil quanto os demais países da América do Sul assentam suas políticas exteriores sobre dois princípios, que constituem a base do direito internacional para a América do Sul: respeito à soberania dos Estados e não intervenção em assuntos internos de outros Estados. Assim se tratou a questão cubana, como também assim se entende o envolvimento na Segunda Guerra, útil e pragmático, porém envolvimento na guerra dos outros, não na guerra brasileira. 7. No último meio século brasileiro assistimos a uma aceleração de mudanças políticas e sócio-económicas, aliás patentes em toda a sociedade internacional, que acabaram por colocar o Brasil numa das potências emergentes para o século XX. Sendo especialista nas relações do Brasil, e proeminente historiador, quais as tendências que essa política externa foi manifestando até à actualidade? Terão as alterações de regime contribuído para a prossecução dessas principais directivas externas, ou contribuindo para a alteração do seu enfoque em relação a determinadas matérias (como a entrada na ONU, movimento dos não-alinhados, G20, blocos regionais de integração, etc)?O regime político pouco ou nada tem a ver com as tendências da inserção internacional do Brasil. Esta passou por três fases desde os anos 1930: industrialização mediante absorção de capitais e empreendimentos estrangeiros, desenvolvimento do empreendimento e da tecnologia de caráter nacional que se agrega ao processo, terceiro, internacionalização da economia brasileira mediante expansão para fora de empreendimentos nacionais na era da globalização. O muultilateralismo foi utilizado como instrumento para realizar as metas de cada uma dessas fases. 8. Um dos fenómenos recentes sobre os quais existe um fraco acesso a alguma investigação prende-se com as razões da mudança da capital federal para Brasília sob o governo de Juscelino Kubitschek. Neste âmbito, poderá esclarecer-nos sobre as condições sobre as quais ocorreu essa mudança? Quais as pressões e justificações históricas e de época para o ambicioso processo de construção de Brasília?A idéia de transferir a capital para o interior vem da época da Independência. Juscelino a realizou com o intuito de levar o desenvolvimento econômico ao interior do Brasil e acelerar o desenvolvimento naciona. Foi um bom cálculo, não há arrependimento. 9. Olhando para o futuro, que relações para Portugal e o Brasil no século XXI?Portugal e Brasil tiveram relações históricas pouco relevantes, desde a Independência. Após a opção portuguesa pela Europa, com o fim da descolonização, essas relações tendem a manter sua irrelevância, sendo utópico pretender uma reprodução no Atlântico Sul da parceria estabelecida entre as duas potências do Atlântico norte, Inglaterra e Estados Unidos. Desse lado, há diferenças profundas nas visões de mundo, na autoimagem e na idéia que cada um se faz do papel a exercer sobre o cenário internacional. 10. Para concluir, já vem sendo uma tradição questionar académicos portugueses e brasileiros sobre o Acordo Ortográfico, esse documento revisionista da ortografia portuguesa que perdura num impasse por quase um século. Do seu ponto de vista, defende ou opõem-se à sua implementação, e condições sob as quais está a ser feito?O acordo seria um passo importante para o avanço da unidade cultural da lusofonia. As divergências acima referidas entre Portugal e Brasil criam obstáculos a sua aprovação. 11. Na sua obra "Inserção Internacional - Formação dos Conceitos Brasileiros", publicado este ano pela Editora Saraiva, o Professor refere-se de uma forma cristalina ao modo como as análises de política internacional produzidas no Brasil, e outras tantas no estrangeiro, quando afirma que "... o Brasil exibe entre as nações uma experiência singular, que o situa entre cerca de uma dezena de países que perseguem modelo próprio de inserção internacional, porque fazem de si ideia própria do papel a desempenhar no mundo". Gostaria especificar concretamente a que elementos se refere nessa observação?As nações tem ou não tem idéia de papel próprio a exercer sobre o cenário internacional. Poucas exibem uma experiência coerente com sua idéia. Andar por si ou andar com outros diferenciam o comportamento externo. Andar por si exige condições de poder. O Brasil construiu, lentamente, meios de poder, com que realiza seu intento de andar por si entre as nações, voltado para a realização de seu destino. Esse constitui elemento essencial de sua cultura política: não renunciar a desempenhar papel próprio e relevante no seio das nações.
 Entrevistas anteriormente publicadas:
EM PORTUGUÊS:
- Doutora Raquel Patrício - A Emergência Brasileira nos contextos América Latina, EUA e Lusofonia [VER]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - As RI Brasileiras Históricas e Contemporâneas [VER]
- Vice-Almirante Alexandre Reis Rodrigues - A Marinha Portuguesa no Século XXI [VER]
- Professor Catedrático José Adelino Maltez - Assuntos Vários [VER]
- Mestre Isabel David - A Importância da Europa Oriental nos Contextos Regional e Mundial [VER]
- Doutor Estevao de Rezende Martins - A História e a Filosofia do Mundo Contemporâneo [VER]
- Doutor Marcos Farias Ferreira - Os Fundamentos da actual Teoria das Relações Internacionais [VER]
IN ENGLISH:
- PhD. James R. Russell - The Armenian and Pre-Islamic Iranian Civilizations[READ]
- PhD. Raquel Patrício - The Brazilian Emergence in respect to Latin America, the USA and Lusofonia [READ]
- Professor Emeritus Luiz Moniz Bandeira - The Historic and Modern Brazilian International Relations [READ]
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