| Castelo de São Jorge - Marcando uma Posição |
| June 06, 2008 |
 Património: Castelo de São Jorge Local: Freguesia do Castelo, Lisboa Data: 16 de Maio, 2008 Curiosidades: Em vésperas da competição Lisboa Downtown 2008, um campeonato de corridas de bicicleta que percorrem as ruas de Lisboa do Castelo até ao Terreiro do Trigo, subíamos nós enquanto meio-mundo descia. Descrição: Um dos mais antigos monumentos que contam a luta pela independência de Portugal como Reino tomado aos Mouros, toma um lugar central na paisagem alfacinha com uma vista privilegiada sobre os quatro cantos da velha cidade, incluindo o Tejo. Publicação anterior:A Torre de Belém - Uma Fortaleza SeiscentistaJá lhe foi (bem o vistes) concedido C'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. Os Lusíadas, I-25
Hoje subimos a alma de Lisboa para tomar do Castelo de São Jorge a inspiração e visão que banham as suas 7 Colinas. Procuramos respirar a sua história e vivência pelas poucas horas que por lá vagueámos, sondando as suas estreitas vielas rodeadas por altas muralhas, saltando por entre as passadeiras nas íngremes escadas que levavam às torres de observação, e dando novos olhares sobre a bacia do Tejo. Em dia de assinatura de Acordo Ortográfico, julgamos um dever falar sobre o estado do nosso Portugal, numa época de crónica indecisão.
Como em passeios culturais anteriores, a visita começou cedo, numa hora em que a digestão do almoço começava a atrasar o ritmo biológico aos sugestivos mínimos que impeliam uma agradável siesta. Já aqui notamos os ventos que sopram de nuestros hermanos y vecinos, cuja participação ganha relevo inexorável na sociedade lusófona, desde as herdades alentejanas a algumas indústrias nortenhas, ao cenário social da capital por onde abundam as manufacturas made in Zara, e o castelhano de fundo em busca de direcções para famosos marcos históricos. Depois de uma breve passagem no sempre lotado eléctrico da Av. Junqueira que desemboca na Av. 24 de Julho até à Rua do Arsenal, saímos no Terreiro do Paço entre o arco da Virtvtibvs Maiorvm e as costas de D. José I montado no seu cavalo. Em direcção ao Ministério das Finanças, chegamos ao marco zero do nosso roteiro – a Igreja da Madalena.
Do seu pórtico saltam à vista duas esferas armilares sem que houvesse qualquer referência à cruz da ordem militar de Cristo, ou outros elementos heráldicos que tantas vezes marcam estas construções clericais anteriores ao famoso Terramoto de 1755, que arrasou a urbe alfacinha e repercutiu por toda a Europa o anúncio de uma nova ordem espiritual mais distanciada da Fé e dos Ensinamentos. Como n’A Cidade de Deus de Santo Agostinho, obra fundamental na doutrina cristã, resultante das invasões bárbaras ao império romano, na Europa oitocentista a devastação de Lisboa trouxe a ordem férrea do Marquês de Pombal e duas décadas de intensa actividade inquisitorial, da qual falaremos numa próxima oportunidade. Como em todos os grandes momentos de viragem do devir histórico, o Terramoto trouxe uma nova arquitectura e nova ordem política que se aproximou conceptualmente do ceptro e báculo do Princeps suserano, tão bem identificado em esferas armilares com o símbolo do Papado no topo.
De certa forma, a Igreja da Madalena representa a fronteira entre a ordem pré e pós-pombalina, numa espiral de caminhos e ruelas que nos levam de regresso ao passado, para longe da simetria e da política de regra e compasso que marca a paisagem situada entre a estátua do Marquês e o Tejo. Caminhando pela colina do castelo, diversas construções religiosas iam amortizando os primeiros esforços nesta tarde de descobertas. Com excursões de turismo aos altares de uma Igreja Católica Ibérica algo independente daquela que foi a matriz romana, alguns miradouros granjeavam os pedantes com maravilhosas vistas para a larga bacia do Tejo, despojada de qualquer sinal que por outras paragens caracterizaria um aproveitamento dos recursos hídricos próximos das grandes urbes para o recreio e lazer. Para além de esporádicos cargueiros que faziam a sua atracagem nos portos do Barreiro ou na Trafaria, apenas dois cacilheiros borbulhavam a superfície opaca do Tejo. Visão algo paradoxal, pois não só faltam as naus como os pequenos barcos à vela ou iates, que noutros portos europeus animam as costas com autênticos festivais de danças marítimas nas quais exibir marinheiros de vocação e dom, manuseando suas embarcações com requintes ímpares. Como que parados nesse tempo indefinido em que ambicionámos uma nova política ultramarina com uma nova marinha e com recurso a novas potencialidades e oportunidades coloniais para os novos tempos, ficámos com os velhos hábitos de uma antiga potência colonial com uma antiquada frota mercante e de guerra, num fluir de águas que não mais voltarão a passar. Como as oportunidades…
(Pórtico da Sé de Lisboa) Rua acima, eis a Sé, monumento românico de visível antiguidade e desapego por aqueles que lhe prestam serviço, se autoridades municipais se religiosas de uma qualquer ordem, franciscana ou Opus Dei, em que apenas sei que má imagem colhem. Obedientes condutores de autocarros de matrícula estrangeira manobram na pequena praça de reunião dos muitos fiéis que se amontoam para poderem regozijar-se com os doirados altares de várias santidades. Pelo turbilhão, optamos por resumir a viagem.
Numa outra igreja de bairro, menos imponente certamente mas apesar de tudo hermosa in su simplicidad, e que apenas vem confirmar aquela que é uma tese para a qual só encontro argumentos que corroboram a sua validade – a Igreja Católica é a maior empresa alguma vez criada, com filiais, empregados, directores-gerais e sub-contratados em todos os cantos do planeta, e que resistiu às várias globalizações com pequenas alterações e grandes cisões, mas que sem dúvida permanece como exemplo insofismável da sua universalidade. É exactamente nesta igreja que vemos a actuação de planos reformistas da época da Regeneração de meados do século XIX. Aí, um busto de BUSTO PERSONAGEM diante de um painel de azulejo a retratar o Terreiro do Paço cunha outros tempos, a meia distância entre a Sé e o Castelo. Novo miradouro presenteia os viajantes com outro cenário de igual envergadura. Daqui tornam-se cristais os estaleiros da Lisnave, os baixios de Vila Franca, o célere urbanismo que chegou ao Montijo através da Ponte Vasco da Gama, e dá-se razão à designação de Alentejo. Com as aclamadas tascas de esquina e esplanadas com cafés a tuta e meia, bendita seja Lisboa debaixo de um Sol a adivinhar Verão.
(Vista para a Ponte 25 de Abril, a partir do Miradouro do Castelo) Apressando o passo, na expectativa de faltarem umas escassas centenas de metros até chegarmos à entrada do Castelo, um súbito murmurinho dá vida à calçada mal calcada onde automóveis, sobretudo familiares, se encaixilham nos mais minúsculos recônditos por entre árvores e canteiros. Velhas à janela atestam o passar dos tempos, em que lavadeiras, escrivães, arautos, comerciantes e religiosos subiam litigiosamente as ruas da cidade, após desembarcarem com festas no Paço, para então se dirigirem a el-Rei. Com efeito, a mudança da corte real para o Paço da Ribeira apenas se deu com D. Manuel I e a descoberta oficial do caminho marítimo para a Índia. Facto de fácil compreensão para quem turisticamente e a meio passo sobe a mais alta das colinas da cidade, deixando para trás os baixios à beira rio plantados e que se estendem do antigo porto até às costas solarengas de Cascais. Com a independência garantidamente assegurada e com perspectivas de uma enorme expansão colonial por toda a costa africana até às Índias Orientais, era necessária uma plataforma terrestre onde supervisionar o aportar e regatear das especiarias, escravos, minérios e outros bens que inundavam as cortes europeias com um exotismo inaudito. Eis, pois, as principais razões que levaram à construção do Terreiro do Paço iniciada em 1498 e terminada em 1503. Esta seria a nova sede administrativa, política, comercial e militar do império oceânico em crescimento.
Aproximando-nos do destino, serpenteando vielas antigas e construções meio-medievais, meio-restauradas, deparamo-nos com o frontão que encabeça o arco que abre as portas do Castelo de São Jorge. Olvidando as insígnias de um ou outro senhor do poder que à data decretou a inscrição para afirmação no presente e memória futura, como foi o caso de Duque da Terceira, então Ministro da Guerra, que em 1842 coloca neste arco o seu cunho pessoal. Outros brasões lhe seguem, até encontrarmos ambos os pilares revestidos de heráldicas que mais ou menos mantém a sua actualidade nos círculos políticos e bancários. Atrevemo-nos a entrar, esperando excitantemente sentir aquele baque no peito sempre que alguma magnificência atrapalha o espírito e a vista com mais do que é possível apreender nos primeiros instantes. Tal não iria acontecer; a bilheteira logo à entrada, encravada no meio de muralhas semi-destruídas e uma barraca com isolamento e ar-condicionado exigia 5€! O peso de um sonho em visitar um dos maiores centros históricos de Portugal caía para a carteira, sem que me sentisse minimamente solidário com a causa. Cantando-me filantrópicas serenatas a argumentar a necessidade de contribuirmos para a restauração e manutenção deste imponente monumento nacional, retorqui com vários séculos de nenhuma tributação particular sobre o viajante ou curioso, que desfrutou daquele que também é o seu património.
Seguimos em frente, afastando-nos d’hoje e caminhamos em direcção ao passado…
Chegamos ao pátio principal, ombreando a base da cidadela que os mouros designavam por Alcazar e que D. Afonso Henriques conquistou em 1147, muito por obra de Martim Moniz. Incauto soldado das fileiras do fundador do Condado Portucalense e do Reino de Portugal, estava este em cerco ao castelo por 3 meses, até que viu entreaberta uma porta que acedia ao interior da cidadela. É então que Martim Moniz entra para a história de Portugal, ao lançar-se sobre a frecha da porta, impedindo os sitiados de a trancar, mesmo que para isso tenha pago com a sua vida. De rompante, os sitiantes quebram as defesas inimigas que Moniz explorou, para a tomarem por conquistada. E assim se cristianizou uma importante cidade do Al-Andaluz, deslocando a fronteira do jovem reino para Sul, até à fronteira do Tejo. E que impressionante local é o pátio de D. Afonso Henriques para mirar o largo caudal que o Tejo adquire na sua bacia, afunilando depois na desembocadura entre Alcântara e o Barreiro, para sob a Ponte 25 de Abril desaguar no Bugio. Nos cantos deste pátio, canhões desarticulados apontam ora para o coração marítimo do reino – a bacia –, ora para o coração terrestre – o Paço. Nada escapa à águia que sobrevoa majestosa as colinas da Lisabona quinhentista e seiscentista.
(Praça D. Afonso Henriques, no centro do miradouro) No seu centro, D. Afonso Henriques empunha a sua espada de cruzado, de costas voltadas para o Tejo e de olhar esgazeado para Norte. Não sei se por intenção ou acaso, quisera o responsável apontar o nosso mais antigo baluarte da liberdade e independência contra a retaguarda que julgava assegurada em vez da dianteira onde ainda logravam os Mouros. Sinal de apreço ou temeridade pelas conquistas já realizadas? Talvez nunca venhamos a saber, mas pelo menos esteticamente, uma fotografia do nosso egrégio Avô com o Tejo e Além Tejo como paisagem de fundo dá um óptimo postal para os falantes de castelhano e resto da Europa.
Na senda dessa História de Portugal de valorosos feitos, alguns acasos e muitas personalidades, uma placa de madeira incrustada assente entre dois pinheiros bravos aponta o caminho para aqueles que outrora procuraram refúgio em Portugal, nessa mescla de povos e religiões, de pessoas que encerravam em si um pouco do mundo que coube aos Portugueses navegar. Hoje, poucos seriam os viandantes que por terras lusófonas encontrariam algum consolo, pois das suas terras pouco ou nada se cultiva, e as gentes enrijecidas por um estado de desencanto e alguma penúria, numa cauda da europeia que acostumou ser cabeça, mal acolhe quem delas necessitaria. Assim, já nem é preciso aventureiros para ocorrer uma frente de emigração com destino aos mais variados destinos, rumo a Espanha, França, Brasil e outras paragens que por afinidade pessoal ou acaso circunstancial servirão para fazer ou refazer vidas. É o nosso fado, uma relação de amor-ódio com a Pátria Lusitana, que nos leva a encontrar uma casa e uma mão amiga em todos os cantos do mundo, onde outros se aventuraram antes de nós. O lar, esse fica por cá, na nossa terra. Importa pois, retirar da seguinte quadra alguns traços desta alma lusa:

Ao Viandante Tu que passas e ergues para mim o teu braço, antes que me faças mal, olha-me bem. Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de Inverno. Eu sou a sombra amiga que tu encontras quando caminhas sob o Sol de Agosto, e os meus frutos são a frescura apetitosa que te sacia a sede nos caminhos. Eu sou a trave amiga da tua casa, a tábua da tua mesa, a cama em que descansas e o lenho do teu barco. Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada, a madeira do teu berço e do teu próprio caixão. Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza. Tu que passas, olha-me bem e não me faças mal.
Tudo vale a pena se a alma não é pequena, dizia Fernando Pessoa na sua Mensagem. Pois é com profundo pesar que vejo Nossa Alma submissa às correntes da História, relegada para um resignado posto de menoridade espiritual atípico a quem grandes feitos fez. Estarão os nove séculos de História a pesar e entorpecer o espírito das pessoas, que se deixam enganar por promessas fúteis e desembaraços sucessivos que nos prendem numa corrente de desenrascanços tornados conduta? Não me serenem o coração com cantigas d’embalar, que quem os males a dormir pode ver, pouca ou nenhuma razão achará para aqui continuar a viver. Num Portugal que já tantas vezes mudou de forma e tamanho, afiguram-se os nossos pupilos melhores mestres do que temos sido, e não será com pesar que deveremos acolher-lhes no seu anunciar das boas novas que teimamos em rejeitar porta fora. Se já Camões poetizava uma Lusofonia universalista envolta num abraço armilar, aprenderam mais a quem ensinámos do que nós próprios que a ensinar deveríamos ter aprendido.
Voltando ao Castelo de onde partiram e partem estes sonhos de Lusotupismo, que agora registo pela primeira vez, e sobre o qual versarei posteriormente em meus estudos, encontramos D. Manoel I, o Venturoso com o seu ar recostado e contemplativo, como o Infante D. Henrique é várias vezes retratado quando enfrenta a profundidade apelativa e mortífera do mar com olhar profundo de estratega audaz no qual viria a lançar Portugal na sua mai grandiosa odisseia. Inspirado pelo poeta que, só com uma vista, viu mais que todo um povo, eclipso-me sob a luz áurea que dá razão de ser a estes escritos, procurando deles fazer sentido. Pergunto-me se acaso homens de igual estatura não houveram que dessem continuidade aos feitos de nossos avós, estes pais nossos que votaram o futuro ao abandono de um mero jogo de dados que espera correr bem. Quinando, e muitas vezes o fizemos, negros têm sido os tempos que antecedem a chegada do Messias envolto num manto de nevoeiro. Mas sobre ele me calarei enquanto é tempo, pois nele mergulhado não lhe acharei o fim.
Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. Os Lusíadas, I-18 Links úteis: http://www.castelosaojorge.egeac.pt/ http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_S%C3%A3o_Jorge
 (Clicar para aumentar) Labels: Hereditas |
Escrito por Tiago   |
|
|
|