A Capela da Nossa Senhora da Boa Viagem é um daqueles lugares místicos em que os sonhos se soltam e a imaginação divaga ao sabor do vento de outros tempos passados. Na lusa gesta que catapultou a lusofonia para os quatro cantos do mundo, é aqui que os marítimos rastos de embarcações projectadas no azul infinito do mar e céu ganham vida no imaginário comum destas adormecidas paragens.
(Rumo à capela da Boa Viagem, no Estádio Nacional, vale do Jamor)A Capela da Nossa Senhora da Boa Viagem localiza-se na Freguesia da Cruz Quebrada – Dafundo, um nome bastante adequado para além que se questiona qual será o verdadeiro significado de tão pouco auspicioso topónimo para tão singela Freguesia. Principalmente quando as praias de Algés, Cruz Quebrada e Dafundo tinham tamanha importância na desembocadura do Tejo em direcção ao grande mar. Talvez tenha sido aí que o Velho do Restelo passara os últimos e decadentes anos da sua vida, anunciando tempestades a quem cruzava de peito erguido os retumbantes brios de outras latitudes. De pouco ou nada serviram os seus catastróficos prelúdios de desgraça e vingança, pois inúmeros viajantes cruzaram os mares azuis que circundam o globo transportando mensagens várias, mas comummente veiculadas pela Língua de Camões.
(Embarcação da Armada Francesa, vagarosa nas águas límpidas)Na manhã que lá passei, uma corveta da Armada Francesa atravessava calmamente o canal de navegação do Tejo, deixando atrás de si o rio e adivinhando pela frente as límpidas águas da costa Lisboa-Cascais. De certa forma, é-me difícil não questionar qual seria realmente a experiência nacional vivida nos séculos XV e XVI quando maravilhosas peças de construção naval aportavam nas docas de Lisboa vindas do Oriente, para logo de seguida regressarem à carreira da Índia com outros sonhos e outras ambições. Num espaço tão confinado e aparentemente caótico como um convés de uma nau, era frequente encontrar-se Genoveses, Franceses, Bretões, Germânicos e até Nórdicos e Espanhóis. Cada um contando a sua história, cada um embarcando na sua conquista por sonhos não realizados, cada um participando em algo que os transcendia.
Caindo na realidade, admiro-me com sincera estupefacção, talvez misturada com uma pitada de inocência, porque que raio não encontramos nenhuma carreira turística que aproveitasse as embarcações tradicionais da gesta lusa em toda a bacia e estuário do Tejo, estendo-se inclusive até às paragens da vila de Cascais ou indo até à Caparica. Como acontece no Algarve, não é de todo surpreendente observarmos nas docas mais urbanizadas um ou dois exemplares de embarcações seiscentistas ou setecentistas adaptadas às calmarias veraneantes que permitem o embarque de dezenas de entusiastas e curiosos para passarem mui agradavelmente um pedaço da manhã ou da tarde a deambularem a confortável distância da costa dourada meridional e aí apreciarem o recalcado das falésias, os mares de gente nas praias, os audazes e muitas vezes ilegais projectos arquitectónicos para vivendas de luxo. A única embarcação do género que alguma vez vi cruzar as águas do Tejo, desculpando-me por algum lapso, foi durante a Exposição Mundial 1998, quando aí mostraram uma réplica de uma nau portuguesa. De resto, vi uma caravela portuguesa de posse privada
na minha visita à Torre de Belém, quando esta ainda mostrava portentosas velas com a insígnia da Fé de Cristo. Mas foi isto. A minha memória visual de embarcações históricas que pautaram o mais glorioso período português resume-se a três episódios: Algarve, Expo’ 98 e caravela privada.
Quando nas notícias é frequente ouvirmos anunciar a realização de celebrações a título de
famosas batalhas navais ou de barcos antigos, ou de
desembarques que trouxeram as boas novas d’outras terras, por cá cingimo-nos a eventos para turista inglês e para projectos megalómanos com fraca fiabilidade financeira exterior ao mercado imobiliário. Pois bem, foi nesta onda de inocência e despretensiosismo que imaginei o quão proveitoso seria estabelecer uma empresa de turismo marítimo utilizando exclusivamente modelos de embarcações históricas. Estabelecendo rotas relativamente curtas e de fáceis acessos, facilmente imaginar-me-ia a entrar numa mini-viagem histórica que ligasse o Terreiro do Paço à Praia dos Pescadores, ou até à Fonte da Telha, Sesimbra ou Tróia, os limites seriam ditados pelos interesses do mercado. Certamente seria fácil a atribuição de fundos comunitários a projectos que promovessem o Ecoturismo, pois além da alimentação de toda a aparelhagem electrónica, pouco ou nenhum combustível seria utilizado nas viagens. Mais, perante o volume de projectos co-patrocinados pelo orçamento comunitário, não seria de espantar que uma ideia deste tipo merecesse igual atenção àquela atribuída à criação de fundações na Beira Baixa, ou centros recreativos no Alto Minho. Ademais, com a clara terceirização da economia portuguesa e sua dependência face ao sector turístico, que melhor seria do que levar o nórdico europeu do calor abrasador de uma Lisboa solarenga com o ar rarefeito em CO2 e convidá-lo a uma rejuvenescente viagem pelo Tejo até ao seu repouso nos hotéis no sopé da Serra de Sintra?
Por mim, em falta de mais palavras e no esbanjamento de muitos sonhos, deixo milhares de palavras em forma de fotografias…
E com rogo o palavras amorosas,Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,Me disse:--"As cousas árduas e lustrosasSe alcançam com trabalho e com fadiga;Faz as pessoas altas e famosasA vida que se perde e que periga;Que, quando ao medo infame não se rende,Então, se menos dura, mais se estende.Os Lusíadas, IV-78

Na inscrição lê-se: