 Património: Torre de Belém Local: Santa Maria de Belém Data: 9 de Maio Curiosidades: Património Cultural da UNESCO, critérios iii e vi. Descrição: Considerada um dos mais característicos símbolos de Lisboa, a Torre de Belém é um monumento de passagem obrigatória para quem se desloca pelo maravilhoso passeio marítimo de Belém.
Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. Os Lusíadas, I-17
A Torre de Belém é usualmente referida como uma das mais icónicas construções históricas de Portugal, e de passagem obrigatória a quem por passeios lisboetas se dirige ao Mosteiro dos Jerónimos, Padrão dos Descobrimentos e aos Pastéis de Belém. Mais recentemente, recebeu a distinção das célebres nomeações d’As 7 Maravilhas de Portugal, onde foi distinguida a par com outras grandes construções como os Jerónimos, Mosteiros de Alcobaça e Batalha, Castelos de Óbidos e Guimarães, Palácio da Pena. No entanto, e perante o conjunto de importantes e magnânimos monumentos lisboetas, é daqueles que menos mediatização tem recebido junto dos públicos nacional e estrangeiro, não obstante a sua inclusão em inúmeros postais à venda nas dispersas lojas de souvenirs.
A nossa visita começou numa primaveril tarde de Maio em que o horizonte adivinhava solarengos ares aos cantos dos pássaros, mas cujas nuvens baixas insistiam em debandar ocasionalmente chuviscos que aceleravam o passo dos transeuntes, vagarosamente entretidos com o estuário do Tejo. Após uma primeira visita pelas docas Bom Sucesso, com afamada reputação de alguns poucos abastados que regateiam contratos e contactos na próxima Vela Latina, aproximamo-nos à beira rio para melhor inspirarmos uma breve maresia que fez lembrar outros tempos. Ao sabor do vento, uma caravela restaurada tentava as primeiras manobras, aprimorando direcções e experimentando as velas dispostas na sua proa, certamente interrogando-se pelos esfíngicos esforços de outrora. Olhando a foz, uma breve memória histórica lembra os tempos áureos do passado, em que saudades de futuro inundam o imaginário daqueles que ficam por terra. O Bugio é o último reduto a quem ao mar se atira, possivelmente para nunca mais voltar. E nesta paisagem, com a costa a estibordo banhada por uma estrada marginal serpenteante, com maravilhosas vivendas e casinos, cafés de praia e salários garantidos por um bom lugar ao Sol da sociedade, na margem a bombordo observamos uma indústria rudimentar que salpica as costas íngremes ao Além Tejo, numa espécie de suburbanismo rústico que convém aos fins-de-semana.
(Docas do Bom Sucesso, perto da Vela Latina)
Subitamente, um cargueiro de médio porte avança de rompante pelas águas remexidas por um vento agravante, dirigindo-se contra o glorioso símbolo do passado – a caravela portuguesa. Frente a frente, duas épocas confrontam-se pela máxima eficiência: o cargueiro nórdico, robusto e amarfanhante, galga terreno à caravela principesca e elegante. A tecnologia, veiculadora da pretensão obsessiva-compulsiva de controlo do Homem sobre a Natureza, recai a favor do colosso movido a combustível fóssil, após um breve alarido e inversão de marcha por parte da caravela. Ambos seguem em direcções opostas: o cargueiro para o Atlântico, a caravela para Vila Franca; duas realidades tão distintas quanto o século XXI do XVI. De resto, os meus pensamentos ficam-se por essa pequena máquina do tempo movida a velas, levando-me a sonhar viagens nunca feitas. Talvez um dia, quando os ventos soprarem de feição; talvez um dia vejamos esse passado tirado do baú poeirento em que metemos a memória de nossos egrégios avós, como recorda A Portuguesa.
Seguindo em frente, pelos jardins da Torre de Belém, a paisagem verdejante estende-se até ao reboliço da marginal, onde estrangeiros estendem as suas toalhas usualmente utilizadas nas suas viagens mediterrânicas de típicos veraneantes, para na Primavera gozarem da acalmia de uma Europa periférica. Poucos são os jovens que se movimentam neste passeio marítimo, substituídos por reformados de meias alçadas até ao joelho e chinelos de tacão. São os sinais do tempo…
A meio caminho da Torre, algo se destaca por entre algumas árvores que protegem os autocarros turísticos do Sol acinzentado: é uma réplica da aeronave utilizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral quando decorria o ano de 1922, e estes incautos aventureiros realizavam a primeira travessia aérea sobre o Atlântico Sul. Que surpreendente feito! Não foram as caravelas engenhos suficientemente intimidativos para os fracos de coração, autênticas cascas de noz na imensidão do oceano, como teríamos na nossa História quem ousara montar-se numa caixa de palitos e enfrentar não só o oceano como o ar. Houvera algum problema mecânico ou atmosférico, e padeceriam dos males de quem voa e da fortuna de quem navega. Mas a tudo isto é superior um espírito louvável e que soube servir os seus, e destes exemplos estão os nossos nove séculos de História cheios. Oxalá existisse quem tamanhos esforços ultrapassasse para hoje reunir novamente Portugal e o Brasil, tão apartados um do outro estão que apenas tomarei fôlego quando este afirmar-se legítima e incontornavelmente o autor e actor de uma nova Lusofonia para o século XXI.
(Monumento em honra de Gago Coutinho e Sacadura Cabral)
E eis que, mais alguns passos volvidos, surge diante de nós o imponente forte seiscentista: robusto, militarista, e manualmente cravado com as mais diversas inscrições e formas, desde influências da Ordem de Cristo até ao império emergente. Referenciado internacionalmente pelo cunho da UNESCO como Património da Humanidade, a par com o Mosteiro dos Jerónimos, a coroa do Tejo é apenas ombreada pela beleza circundante. Por feliz coincidência, a torre também conhecida por Castelo de São Vicente a par de Belém, retirado do patrono da cidade de Lisboa, encontrava-se “vestida” para uma noite de fados em que a diva portuguesa Mariza tocaria num palco elevado sobre as águas do Tejo, entre a plateia e a Torre, alguns dos seus maiores êxitos. Esse seria um evento organizado por ocasião da iniciativa As 7 Maravilhas, que se encontra de momento a realizar os mais diversos tipos de actividades culturais junto dessas grandes construções homenageadas com essa distinção honorífica. Nesta Lisboa menina e moça, que grande celebração lhe haveria de dedicar, que certamente coraria as ninfas do Tejo.
A fortificação da Margem Norte é parte integrante de um sistema de defesa que o Rei D. João II projectou para o estuário da capital, que se alargava ao Baluarte de Cascais e à fortaleza de São Sebastião da Caparica, assim triangulando a entrada para os portos de Lisboa onde, no tempo do primeiro impulso imperial e vinda de um número maior de embarcações, foi necessário salvaguardar o seu centro nevrálgico. Garcia de Rezende, escrivão da corte de D. João II (1481-1495), tendo ainda exercido cargos de maior ou menor importância nas cortes de D. Afonso V (1431-1481) e D. Manuel I (1495-1521), mas também analista de arquitectura e sistemas militares, vai considerar a conclusão do projecto de seu suserano em 1520 uma obra de impressionante feito e visão. Assim via-se assegurava a defesa do reino por parte de actividades de pirataria e frotas inimigas que com uma defesa fortificada avançada – vulgo, Baluarte de Cascais -, permitiria a organização de uma defesa substancial na baia do Tejo e rajadas de fogo cruzado pelas inúmeras peças de artilharia colocadas no baluarte da Torre de Belém. Estava assim salvaguardado o nariz da cabeça da rainha Europa, conforme mostravam os mapas da época.
(Caravela e cargueiro, sinais dos tempos...)
Outrora circundada por água, hoje a praia de Belém já ganhou em metros à impressionante construção militar de inspiração manuelina, o único estilo arquitectónico que tira o nome a um monarca de reinos europeus. À beira rio, um pequeno palco aí colocado horas antes adivinha um concerto memorável que infelizmente não terei a oportunidade de assistir, se por descuido ou pouca atenção aos meios mediáticos. Esquecendo a desfeita, a ponte andáimica retirada de uma qualquer construção civil faz a ligação entre o pequeno cais e a torre, onde turistas pululam até arrearem pé na entrada rodeada de muralhas trabalhadas nos melhores nós da famosa Cordoaria dos Descobrimentos. Saliente, um dístico identifica o local como pertencente ao Património Cultural da Humanidade, um claro e manifesto símbolo da importância histórica do monumento que nos atrevemos a pagar 1,2€ para entrar, com Cartão-jovem. Perante esta afronta, entramos de frente para o baluarte onde se encontram os 16 canhões dispostos de forma concêntrica e a cobrir balísticamente um raio de 180º, de costas voltadas para a costa. Mas independentemente destas características mais técnicas, sobre as quais encontrarão melhor documentação no final deste artigo, decidimos ir para o 1º Piso, a designada Sala do Governador.
Numa sala quadrangular com uma grande janela para o lado oriental, nenhuma mobília enchia o espaço inóspito e arrefecido pela falta de luz. No entanto, como pouco trabalho devia preencher o quotidiano de um governador da Torre de Belém, o arquitecto quis dar-lhe muito gentilmente um imponente varandim recheado com esculturas meticulosamente trabalhadas e com uma vista excepcional para todo o Rio Tejo. No centro, um pequeno andor com a figura da Nossa Senhora do Bom Sucesso, que a par da Nossa Senhora da Boa Viagem, situada no Alto da Boa Viagem no Dafundo, representavam as duas musas católicas que abençoavam as embarcações na sua viagem a partir do Tejo em direcção aos cantos do mundo. Entre pequenas guarnições para tiro coberto, a frieza da pedra branca transmitia um sentimento de invulgar nostalgia ao imaginar a fervura das águas causada por um incessante ir-e-vir de naus e caravelas e galeões que um dia cruzaram estas águas. É com um profundo pesar que não vejo nenhum projecto de adaptação cinematográfica que reflectisse esse ambiente quinhentista e seiscentistas dos Grandes Navegadores. De facto, nenhuma adaptação cinematográfica parece reflectir qualquer ambiente anterior à Guerra Colonial, que por si só representa um período algo conturbado e pouco feliz da nossa História. Ou até mesmo um videojogo, algo de todo!
(Nossa Senhora da Boa Viagem, Virgem do Restelo ou Virgem das Uvas)
Seguem-se, nesta aventura, os quatro restantes pisos, nomeadamente a Sala dos Reis, a Sala das Audiências, a Capela e o Terraço, cada qual com uma vista diferente para a geografia circundante, dando novos olhares à vista. Com uma iconografia bastante sugestiva das forças que animaram o império, desde a Cruz de Cristo à Esfera Armilar, todo o edifício transborda uma herança que a certa altura parece ter-se perdido. Parte da missão desses escritos é recuperá-la, pedaço a pedaço, até se reconstruir parte do Livro do Legado.
Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. Os Lusíadas, I-33

Jogo dos Galeões - a Torre de Belém está a ser atacada por embarcações inimigas, mas possui um potente canhão para fazer frente a esta ameaça. O jogador tem por missão afundar o máximo de barcos, com o mínimo de prejuízo para a torre. Necessário: plug-in Shockwave Director 8
 Segredos de Belém - a zona de Belém tem muitas curiosidades para descobrir. Cinco simpáticos animais são os cicerones desta visita a Belém, que conta com diversos passatempos e actividades lúdicas para os mais pequenos. Necessário: Internet Explorer 4 e versões posteriores
http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Bel%C3%A9m http://www.manorhouses.com/unesco/whbelem.html http://www.mosteirojeronimos.pt/web_torre_belem/frameset.html http://www.monumentos.pt/scripts/zope.pcgi/ipa/pages/ficha_ipa?nipa=1106320024

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